quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

FERNANDO MCDOWELL É ESCOLHIDO SECRETÁRIO DE TRANSPORTES DO PREFEITO MARCELO CRIVELLA


O prefeito eleito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, foi diplomado hoje em cerimônia na qual ele anunciou sua equipe, a duas semanas de assumir o mandato. Um dos destaques é que o vice-prefeito, Fernando McDowell, acumulará também a função de secretário de Transportes.

Engenheiro urbanístico e professor da UFRJ, McDowell já trabalhou para os governos de Moreira Franco (hoje secretário do Programa de Parcerias e Investimentos do presidente Michel Temer) e Leonel Brizola. É um dos mais destacados especialistas em urbanismo e transporte coletivo.

McDowell, na cerimônia de diplomação de Crivella e sua equipe, afirmou que pretende estatizar o Metrô do Rio de Janeiro, privatizado desde 1997, e defende a manutenção do serviço de Uber na concorrência com os táxis municipais. No caso do metrô, ele propõe que a estatização seja feita mediante acordo entre Estado e município.

Sobre os ônibus, aparentemente McDowell, que já declarou ser contra a pintura padronizada nos ônibus, nada declarou a respeito. No setor, ele só se limitou a anunciar que pretende apenas reduzir a velocidade de circulação dos BRTs nos corredores específicos de 60/70 km para 40 km, evitando assim o risco de acidentes. Ele estuda também avaliar as tarifas desse tipo de transporte.

PINTURA PADRONIZADA

Quando o então prefeito do Rio de Janeiro, hoje no final do segundo mandato, Eduardo Paes, anunciou, em dezembro de 2009, a padronização visual dos ônibus municipais, um dos que mais reagiram contra a medida foi justamente Fernando McDowell.

"Deus queira que o prefeito não faça isso", disse o engenheiro, na época. A medida foi adotada em meados de 2010, de maneira autoritária por Eduardo Paes, forjando uma votação na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ) meio na surdina.

Em seis anos, a pintura padronizada foi a roupagem que acobertou a corrupção político-empresarial que tornou o sistema de ônibus carioca, antes referência para o país, num dos mais decadentes de todo o Brasil. Empresas trocavam de nome, havia empresa operando em linha de outra, os ônibus circulavam sucateados e a população, que não raro pegava os ônibus errados, era sempre a última a saber.

Hoje se questiona a validade do vínculo de imagem das prefeituras (ou, no caso de outros Estados, também dos governos estaduais) nas empresas particulares de ônibus. Se o poder público quiser botar sua marca no sistema de ônibus municipal ou intermunicipal, que criasse uma empresa estatal própria, até porque seu ônus político e até econômico na imposição de sua imagem nas empresas particulares acaba criando complicações para os passageiros, em diversos aspectos.

Não se sabe se Fernando McDowell irá eliminar a pintura padronizada nos ônibus. Espera-se que sim, pela sua perplexidade quando a medida foi anunciada. O grande problema é que, embora seja nociva para os passageiros, a pintura padronizada é uma medida que conta com um lobby entre políticos e tecnocratas do transporte coletivo, como se observa nas feiras do setor, em que logotipos de prefeituras ou governos estaduais, assim como a pintura adotada, servem de propaganda.

O cancelamento da pintura padronizada é possível mesmo com a manutenção dos consórcios. A representação de imagem é que mudaria, pois o nome do consórcio deixaria de ser enfatizado, ficando talvez representado por pequenos adesivos colados nos ônibus ou em dados de letreiros digitais. Dá para as empresas recuperarem suas identidades visuais respectivas sem que o contrato de licitações firmado em 2010 fosse rompido.

O que complica esse cancelamento é que ele irá influir em todo o país. Cidades como Florianópolis, Teresina, Recife, Niterói, Nova Iguaçu e Campos adotaram a pintura padronizada na carona do modismo do Rio de Janeiro, claramente voltado ao outdoor político para a Copa do Mundo e as Olimpíadas Rio 2016.

Passados esses eventos, a pintura padronizada perdeu o sentido, mas seu cancelamento influirá não só no recuo das cidades que pegaram carona no "modismo padronizado" carioca, como pode gerar impacto em regiões metropolitanas em que a medida virou uma "tradição", como São Paulo, Curitiba ou mesmo a Belo Horizonte em que uma mesma empresa de ônibus chega a ter até cinco diferentes pinturas, complicando o deslocamento de carros para as linhas.

O dado que pode possibilitar o fim da pintura padronizada, no Rio de Janeiro, é que a marca da prefeitura, impressa nos ônibus municipais, lhe dá maior responsabilidade, o que, num contexto de corte de investimentos, traz mais problemas quanto a lidar com diferentes empresas particulares.

Além disso, a medida nunca teve a adesão do povo carioca, por mais que a mídia tentasse inserir os ônibus padronizados na paisagem carioca. E a própria pintura, que lembra uma embalagem de remédio da Boeringer Ingelheim - daí o apelido pejorativo de "Buscopan" - , já trouxe má fama diante de tantas notícias de acidentes de trânsito que causaram centenas de feridos e vários mortos.

O jeito é esperar a prefeitura do Rio de Janeiro assumir nova gestão no começo de 2017. Crivella, evidentemente, ainda está elaborando seu projeto de governo e muito do que fará será decidido no calor do momento. É esperar que, no caso dos Transportes, McDowell possa ter a coragem necessária de romper a pintura padronizada, desafiando um poderoso lobby que ainda domina o setor no Brasil.

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