terça-feira, 23 de agosto de 2016

E SE FOSSE NO FUTEBOL?


Pode parecer impossível, mas tudo pode acontecer. De repente, autoridades políticas e dirigentes esportivos decidem que haverá uma padronização visual nos uniformes dos times de futebol. Todos os times de cada Estado brasileiro terão rigorosamente o mesmo uniforme, que valerá até quando dois times competem entre si, e não haverá mais uniforme individualizado.

Há um anúncio afirmando que, definitivamente, os times estaduais deixarão de ter uniforme próprio, Valerá um uniforme único para cada Estado. Rio de Janeiro, terá um, São Paulo terá outro, Distrito Federal mais outro. Santos e Corinthians terão o mesmíssimo uniforme. Flamengo e Vasco idem, que valerá também para o Goytacaz (Campos), América, Bangu e Nova Iguaçu FC. E por aí vai.

O anúncio estabelece razões técnicas para tal mudança. Há frustração entre os torcedores. Há revolta na Internet. No entanto, autoridades, dirigentes esportivos e jornalistas combinam uma produção de consenso que faça com que a medida prevaleça, por mais que muita gente se sinta prejudicada.

Não faltam alegações técnicas ou mesmo argumentos de internautas para defender a padronização visual dos times de futebol. Vamos enumerar aqui os possíveis argumentos, que poderão sustentar a medida, se implantada, e torná-la definitiva e transformar em passado a lembrança de Flamengo ter um uniforme, Fluminense ter outro, Vasco outro, Palmeiras, Criciúma, Cruzeiro os seus etc.

Vejamos alguns argumentos aparentemente técnicos de autoridades e dirigentes esportivos ou mesmo argumentos agressivos de internautas que passam a defender a medida com fanatismo. Leia e analise se realmente vale a pena adotar um visual só para todo mundo, como se fez nos ônibus. São 11 motivos, já que 11 é o número de jogadores em campo neste esporte:

1) UNIFORME VIROU ROUPA DE NOITADA - Abolir o uniforme personalizado sob alegação de que só serve para alimentar a vaidade do artilheiro, vide episódios de antigas noitadas feitas por craques como Fred (então do Fluminense), Ronaldinho Gaúcho e Vagner Love (então do Flamengo). Com a padronização, há o argumento de que se acabará com o uso indevido do uniforme de cada time, já que o uniforme único para todos os clubes estaduais traria maior objetividade no seu uso.

2) DISCIPLINAR TORCIDAS ORGANIZADAS - O argumento de que a determinação de um uniforme único estadual iria disciplinar as torcidas organizadas pode também ser um forte motivo a ser divulgado, pois o uniforme individualizado de cada time seria acusado de estimular a arrogância e o fanatismo dos torcedores juvenis. A imposição de um uniforme único teria como pretexto diminuir esse sentimento e moderar a violência dos torcedores.

3) ORGANIZAÇÃO DO FUTEBOL ESTADUAL - Os dirigentes esportivos argumentariam que o uniforme único iria dar uma maior organização no futebol, definindo a diversidade dos uniformes como um caos a ser combatido. Pelo discurso oficial, a medida de um uniforme único estadual seria uma forma de dar uma aparência "limpa" para o futebol de cada Estado e uma maior disciplina na organização dos clubes.

4) MAIOR DESTAQUE PARA O JOGADOR - O discurso também investiria no argumento de que, com o estabelecimento de um uniforme único para o futebol de cada Estado, os jogadores teriam mais destaque, e não o time de futebol. Tecnicamente, soaria verossímil.

5) UMA SÓ PAIXÃO - No discurso publicitário, o uniforme único para o futebol de cada Estado poderia apelar para argumentos como "uma mesma paixão", "um só futebol" e similares, como se fosse desnecessário haver diferentes uniformes porque o futebol estadual é um lazer que une multidões.

6) NÃO IMPORTA ROUPA, IMPORTA É A JOGADA - Esse argumento poderia ser compartilhado por dirigentes esportivos, autoridades e internautas, mesmo os "troleiros" e similares. A ideia é abolir o uniforme personalizado, criando um uniforme único para cada Estado, visando que futebol não é questão de roupa, mas questão de ter um bom jogo. Diante disso, poderão aparecer na Internet desculpas como "futebol não é desfile de moda" e o cyberbullying poderia até inventar o apelido de "Clodovil" para torcedores que sentem falta do respectivo uniforme de seu time.

7) JOGADOR PODERÁ SER IDENTIFICADO POR GPS - Autoridades e dirigentes esportivos poderiam argumentar que haverá opção de serviço nos telefones celulares para identificação de cada jogador de futebol, durante uma partida, através de rede de transmissão de GPS (Sistema de Posicionamento Global). Esta argumentação pode se sustentar também nos argumentos apresentados no ítem 4, da mesma forma como pode sustentar também o fato de, num Fla X Flu, por exemplo, os dois times cariocas jogarem com o uniforme absolutamente igual.

8) MAIOR FISCALIZAÇÃO - Se no sistema de ônibus, a padronização visual deixa duvidoso o argumento da fiscalização, embora ela seja enfatizada numa retórica verossímil, imagine se disserem que o uniforme único para o futebol de cada Estado for uma medida adotada para permitir a fiscalização e disciplina, principalmente se mostrar em destaque ou o logotipo da CBF ou o da federação estadual de futebol.

9) FACILITAR TRANSFERÊNCIA DE JOGADORES DE UM CLUBE PARA OUTRO - Os dirigentes esportivos poderiam argumentar que o uniforme único pode facilitar a transferência de um jogador de um clube para outro, sem precisar muito gasto de roupa. Em certos casos, pode-se colocar um adesivo com o número do clube e da camisa de cada jogador, e trocar quando ocorrer uma mudança, por exemplo, do Flamengo para o Vasco.

10) PROMESSAS DE UM FUTEBOL MAIS COMPETITIVO E TÉCNICO - O estabelecimento do uniforme único para o futebol de cada Estado pode também significar uma promessa de que, ao enfatizar o órgão estadual em detrimento de cada clube (que deixará de ter uniforme próprio), irá também estimular uma visão mais técnica do futebol, tornando os clubes mais competitivos e profissionais. Este argumento se sustenta também pelas alegações expostas no item 6.

11) MAIS CONFORTO PARA OS TORCEDORES - Assim como se argumenta a pintura padronizada nos ônibus usando como "moeda de troca" os ônibus articulados (BRT) e com ar condicionado, pode-se argumentar a adoção do uniforme único para o futebol estadual com melhores estádios, um futebol mais ágil e maior comodidade para os torcedores. Podem ser argumentos confusos, mas eles seriam transmitidos a partir de um discurso verossímil.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

VERGONHOSOS, ÔNIBUS PADRONIZADOS SE "APAGAM" NA RIO 2016

ATÉ AGORA, OS ÔNIBUS PADRONIZADOS SÓ APARECERAM NOS NOTICIÁRIOS POLICIAIS.

A razão de ser da terrível pintura padronizada nos ônibus, imposta por um autoritário Eduardo Paes, se evaporou de vez. A decisão do prefeito do Rio de Janeiro em impor uma mesma pintura para diferentes empresas de ônibus até criou um modismo que contagiou cidades como Niterói, Nova Iguaçu, Recife, Florianópolis e Teresina e requentou os desgastados sistemas de ônibus de São Paulo, Belo Horizonte e Curitiba.

No entanto, a medida está definitivamente desclassificada pelos cariocas e de nada adiantou a mídia enfiar os ônibus padronizados na paisagem carioca, como se observava em reportagens de lazer de O Globo e notícias sofre famosos passeando na orla carioca, porque o fracasso se tornou retumbante.

Mesmo com a "patrulha" de busólogos reacionários ou a complacência de manifestantes de grupos como o Movimento Passe Livre, a pintura padronizada nos ônibus comprovou ser uma medida impopular e maléfica para a população carioca, que desde 2010 passou a ver mais ônibus sucateados e mais corrupção no sistema de ônibus.

Não que isso não acontecesse com a diversidade visual tal como existia antes, mas naqueles tempos era mais fácil, através da identidade visual de cada empresa, identificar a empresa ruim, deficitária, com frota sucateada. Os casos da Oriental e Ocidental eram ilustrativos.

Ultimamente, as pessoas se desorientavam com esse confuso sistema de transporte que mais parece ter vindo das mentes maquiavélicas do deputado Eduardo Cunha. Passageiros tinham que redobrar a atenção para não embarcar no ônibus errado (uma Vila Real e uma Matias, por exemplo, ficaram visualmente idênticas), e ainda eram os últimos a saber de tantas mudanças.

Eram empresas trocando de nome. Sendo extintas e trocadas por outras. Linhas trocando de empresa. Empresas circulando em linhas de outras. Era algo para fundir a cuca dos cariocas, que ainda tinham que encarar motoristas sobrecarregados com a condução e cobrança de passagens, que muitas vezes provocaram acidentes com muitos feridos e até vários mortos.

Mas o pacote também oferecia sobremesas amargas como o desemprego em massa de cobradores, que o sindicato patronal Rio Ônibus tentava abafar silenciando a imprensa, e a redução de itinerários de linhas tradicionais para forçar a baldeação sob o pretexto do "sistema integrado" e banalizar o uso do Bilhete Único, como se ele fosse cartão de ingresso para um parque de diversões.

Os turistas saíram transtornados. Os jornalistas, confusos, não conseguindo identificar a empresa de ônibus correta quando noticiavam algum incidente. Mesmo os busólogos mais fanáticos pela pintura padronizada (jocosamente definidos como "beatas de logotipo de prefeitura") tiveram que admitir os defeitos da causa que defendiam. As autoridades, então, se calam de tanta vergonha.

Nem mesmo o festival de renovações de frotas - nos quais Acari parece Novacap, Real parece Braso Lisboa etc - conseguiu dar algum alento. Os ônibus praticamente sumiram das reportagens das Olimpíadas Rio 2016, quando, na imaginação de Eduardo Paes cerca de sete anos atrás, eles seriam a vitrine da mobilidade urbana carioca para a Copa de 2014 e o corrente evento olímpico.

Não deu. Agora o que se espera é, como na encampação dos ônibus que se encerrou em 1988, a Prefeitura do Rio de Janeiro devolver às empresas de ônibus o direito de exibir suas respectivas identidades visuais. Não vale mudar o leiaute da pintura padronizada e trocar o seis por meia dúzia. É hora de cada empresa de ônibus carioca mostrar sua cara própria. Só falta vontade política para isso.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

PINTURA PADRONIZADA FAVORECE CORRUPÇÃO POLÍTICO-EMPRESARIAL

FLORIANÓPOLIS É UMA DAS CIDADES INVESTIGADAS PELO CADE POR CAUSA DE FRAUDES EM LICITAÇÃO.

A pintura padronizada, que coloca empresas de ônibus diferentes sob um mesmo visual, comprovadamente não traz transparência nem garante a facilidade de identificação. O secretário de Transportes de plantão pode tentar desmentir com todo um palavreado técnico, mas a verdade é que a pintura padronizada complica mais do que facilita no sistema de ônibus de cada cidade ou região.

Os cariocas já sentem o drama. Linhas trocando de empresas, empresas trocando de nome e razão social, grupos empresariais poderosos aumentando poder de ação e interferindo no processo eleitoral, fazendo tudo para seus candidatos serem eleitos. Tudo isso revela que a pintura padronizada nos ônibus serve de lona para esse triste circo dos horrores da corrupção político-empresarial.

Uma reportagem do G1 informa que o CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) investiga fraudes em licitações nos sistemas de ônibus de 19 cidades. O CADE analisa casos que envolvem os processos que beneficiam as oligarquias Constantino e Gulin.

Casos como Rio de Janeiro, Niterói, São Paulo, São Gonçalo, Nova Iguaçu, Recife, Curitiba e Belo Horizonte também têm suas fraudes e irregularidades, mas elas envolvem outros grupos empresariais que fogem do foco de investigações do CADE.

Quase todas as cidades envolvidas adotam pintura padronizada ou passaram a adotar nos processos de licitação: Brasília (DF), Campo Grande (MS), Florianópolis (SC), Foz do Iguaçu (PR), Guarapuava (PR), Jaú (SP), Joinville (SC), Marília (SP), Maringá (PR), Paranaguá (PR), Piraquara (PR), Pontal do Paraná (PR), Porto Seguro (BA), Telêmaco Borba (PR), São José do Rio Preto (SP), São Sebastião (SP), Sete Lagoas (MG) e Uberlândia (MG).

A pintura padronizada, na medida em que iguala empresas de ônibus com um mesmo visual, com os nomes das empresas colocados em ênfase menor do que o do nome do município ou da região de cidades referente ao serviço de ônibus, confunde os passageiros e, ao esconder empresas, impede que a sociedade possa ver com transparência a natureza do sistema de ônibus.

Portanto, é uma licitação estranha, que esconde as empresas licitadas. A exibição de pequenos logotipos ou dos nomes das empresas nos letreiros digitais não resolve o problema, até porque, na correria do dia a dia, a pintura padronizada nos ônibus sempre confunde os passageiros, e muitas vezes confunde até quem acha que não vai ficar confuso com ela.

Mas, pior do que isso, isso não garante transparência e os passageiros têm mais dificuldade de identificar de imediato uma empresa boa ou ruim, já que ambas são iguais. E esse verdadeiro véu serve para acobertar a corrupção que transforma o serviço de ônibus num grave risco de insegurança e acidentes para os passageiros.