terça-feira, 23 de agosto de 2016

E SE FOSSE NO FUTEBOL?


Pode parecer impossível, mas tudo pode acontecer. De repente, autoridades políticas e dirigentes esportivos decidem que haverá uma padronização visual nos uniformes dos times de futebol. Todos os times de cada Estado brasileiro terão rigorosamente o mesmo uniforme, que valerá até quando dois times competem entre si, e não haverá mais uniforme individualizado.

Há um anúncio afirmando que, definitivamente, os times estaduais deixarão de ter uniforme próprio, Valerá um uniforme único para cada Estado. Rio de Janeiro, terá um, São Paulo terá outro, Distrito Federal mais outro. Santos e Corinthians terão o mesmíssimo uniforme. Flamengo e Vasco idem, que valerá também para o Goytacaz (Campos), América, Bangu e Nova Iguaçu FC. E por aí vai.

O anúncio estabelece razões técnicas para tal mudança. Há frustração entre os torcedores. Há revolta na Internet. No entanto, autoridades, dirigentes esportivos e jornalistas combinam uma produção de consenso que faça com que a medida prevaleça, por mais que muita gente se sinta prejudicada.

Não faltam alegações técnicas ou mesmo argumentos de internautas para defender a padronização visual dos times de futebol. Vamos enumerar aqui os possíveis argumentos, que poderão sustentar a medida, se implantada, e torná-la definitiva e transformar em passado a lembrança de Flamengo ter um uniforme, Fluminense ter outro, Vasco outro, Palmeiras, Criciúma, Cruzeiro os seus etc.

Vejamos alguns argumentos aparentemente técnicos de autoridades e dirigentes esportivos ou mesmo argumentos agressivos de internautas que passam a defender a medida com fanatismo. Leia e analise se realmente vale a pena adotar um visual só para todo mundo, como se fez nos ônibus. São 11 motivos, já que 11 é o número de jogadores em campo neste esporte:

1) UNIFORME VIROU ROUPA DE NOITADA - Abolir o uniforme personalizado sob alegação de que só serve para alimentar a vaidade do artilheiro, vide episódios de antigas noitadas feitas por craques como Fred (então do Fluminense), Ronaldinho Gaúcho e Vagner Love (então do Flamengo). Com a padronização, há o argumento de que se acabará com o uso indevido do uniforme de cada time, já que o uniforme único para todos os clubes estaduais traria maior objetividade no seu uso.

2) DISCIPLINAR TORCIDAS ORGANIZADAS - O argumento de que a determinação de um uniforme único estadual iria disciplinar as torcidas organizadas pode também ser um forte motivo a ser divulgado, pois o uniforme individualizado de cada time seria acusado de estimular a arrogância e o fanatismo dos torcedores juvenis. A imposição de um uniforme único teria como pretexto diminuir esse sentimento e moderar a violência dos torcedores.

3) ORGANIZAÇÃO DO FUTEBOL ESTADUAL - Os dirigentes esportivos argumentariam que o uniforme único iria dar uma maior organização no futebol, definindo a diversidade dos uniformes como um caos a ser combatido. Pelo discurso oficial, a medida de um uniforme único estadual seria uma forma de dar uma aparência "limpa" para o futebol de cada Estado e uma maior disciplina na organização dos clubes.

4) MAIOR DESTAQUE PARA O JOGADOR - O discurso também investiria no argumento de que, com o estabelecimento de um uniforme único para o futebol de cada Estado, os jogadores teriam mais destaque, e não o time de futebol. Tecnicamente, soaria verossímil.

5) UMA SÓ PAIXÃO - No discurso publicitário, o uniforme único para o futebol de cada Estado poderia apelar para argumentos como "uma mesma paixão", "um só futebol" e similares, como se fosse desnecessário haver diferentes uniformes porque o futebol estadual é um lazer que une multidões.

6) NÃO IMPORTA ROUPA, IMPORTA É A JOGADA - Esse argumento poderia ser compartilhado por dirigentes esportivos, autoridades e internautas, mesmo os "troleiros" e similares. A ideia é abolir o uniforme personalizado, criando um uniforme único para cada Estado, visando que futebol não é questão de roupa, mas questão de ter um bom jogo. Diante disso, poderão aparecer na Internet desculpas como "futebol não é desfile de moda" e o cyberbullying poderia até inventar o apelido de "Clodovil" para torcedores que sentem falta do respectivo uniforme de seu time.

7) JOGADOR PODERÁ SER IDENTIFICADO POR GPS - Autoridades e dirigentes esportivos poderiam argumentar que haverá opção de serviço nos telefones celulares para identificação de cada jogador de futebol, durante uma partida, através de rede de transmissão de GPS (Sistema de Posicionamento Global). Esta argumentação pode se sustentar também nos argumentos apresentados no ítem 4, da mesma forma como pode sustentar também o fato de, num Fla X Flu, por exemplo, os dois times cariocas jogarem com o uniforme absolutamente igual.

8) MAIOR FISCALIZAÇÃO - Se no sistema de ônibus, a padronização visual deixa duvidoso o argumento da fiscalização, embora ela seja enfatizada numa retórica verossímil, imagine se disserem que o uniforme único para o futebol de cada Estado for uma medida adotada para permitir a fiscalização e disciplina, principalmente se mostrar em destaque ou o logotipo da CBF ou o da federação estadual de futebol.

9) FACILITAR TRANSFERÊNCIA DE JOGADORES DE UM CLUBE PARA OUTRO - Os dirigentes esportivos poderiam argumentar que o uniforme único pode facilitar a transferência de um jogador de um clube para outro, sem precisar muito gasto de roupa. Em certos casos, pode-se colocar um adesivo com o número do clube e da camisa de cada jogador, e trocar quando ocorrer uma mudança, por exemplo, do Flamengo para o Vasco.

10) PROMESSAS DE UM FUTEBOL MAIS COMPETITIVO E TÉCNICO - O estabelecimento do uniforme único para o futebol de cada Estado pode também significar uma promessa de que, ao enfatizar o órgão estadual em detrimento de cada clube (que deixará de ter uniforme próprio), irá também estimular uma visão mais técnica do futebol, tornando os clubes mais competitivos e profissionais. Este argumento se sustenta também pelas alegações expostas no item 6.

11) MAIS CONFORTO PARA OS TORCEDORES - Assim como se argumenta a pintura padronizada nos ônibus usando como "moeda de troca" os ônibus articulados (BRT) e com ar condicionado, pode-se argumentar a adoção do uniforme único para o futebol estadual com melhores estádios, um futebol mais ágil e maior comodidade para os torcedores. Podem ser argumentos confusos, mas eles seriam transmitidos a partir de um discurso verossímil.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

VERGONHOSOS, ÔNIBUS PADRONIZADOS SE "APAGAM" NA RIO 2016

ATÉ AGORA, OS ÔNIBUS PADRONIZADOS SÓ APARECERAM NOS NOTICIÁRIOS POLICIAIS.

A razão de ser da terrível pintura padronizada nos ônibus, imposta por um autoritário Eduardo Paes, se evaporou de vez. A decisão do prefeito do Rio de Janeiro em impor uma mesma pintura para diferentes empresas de ônibus até criou um modismo que contagiou cidades como Niterói, Nova Iguaçu, Recife, Florianópolis e Teresina e requentou os desgastados sistemas de ônibus de São Paulo, Belo Horizonte e Curitiba.

No entanto, a medida está definitivamente desclassificada pelos cariocas e de nada adiantou a mídia enfiar os ônibus padronizados na paisagem carioca, como se observava em reportagens de lazer de O Globo e notícias sofre famosos passeando na orla carioca, porque o fracasso se tornou retumbante.

Mesmo com a "patrulha" de busólogos reacionários ou a complacência de manifestantes de grupos como o Movimento Passe Livre, a pintura padronizada nos ônibus comprovou ser uma medida impopular e maléfica para a população carioca, que desde 2010 passou a ver mais ônibus sucateados e mais corrupção no sistema de ônibus.

Não que isso não acontecesse com a diversidade visual tal como existia antes, mas naqueles tempos era mais fácil, através da identidade visual de cada empresa, identificar a empresa ruim, deficitária, com frota sucateada. Os casos da Oriental e Ocidental eram ilustrativos.

Ultimamente, as pessoas se desorientavam com esse confuso sistema de transporte que mais parece ter vindo das mentes maquiavélicas do deputado Eduardo Cunha. Passageiros tinham que redobrar a atenção para não embarcar no ônibus errado (uma Vila Real e uma Matias, por exemplo, ficaram visualmente idênticas), e ainda eram os últimos a saber de tantas mudanças.

Eram empresas trocando de nome. Sendo extintas e trocadas por outras. Linhas trocando de empresa. Empresas circulando em linhas de outras. Era algo para fundir a cuca dos cariocas, que ainda tinham que encarar motoristas sobrecarregados com a condução e cobrança de passagens, que muitas vezes provocaram acidentes com muitos feridos e até vários mortos.

Mas o pacote também oferecia sobremesas amargas como o desemprego em massa de cobradores, que o sindicato patronal Rio Ônibus tentava abafar silenciando a imprensa, e a redução de itinerários de linhas tradicionais para forçar a baldeação sob o pretexto do "sistema integrado" e banalizar o uso do Bilhete Único, como se ele fosse cartão de ingresso para um parque de diversões.

Os turistas saíram transtornados. Os jornalistas, confusos, não conseguindo identificar a empresa de ônibus correta quando noticiavam algum incidente. Mesmo os busólogos mais fanáticos pela pintura padronizada (jocosamente definidos como "beatas de logotipo de prefeitura") tiveram que admitir os defeitos da causa que defendiam. As autoridades, então, se calam de tanta vergonha.

Nem mesmo o festival de renovações de frotas - nos quais Acari parece Novacap, Real parece Braso Lisboa etc - conseguiu dar algum alento. Os ônibus praticamente sumiram das reportagens das Olimpíadas Rio 2016, quando, na imaginação de Eduardo Paes cerca de sete anos atrás, eles seriam a vitrine da mobilidade urbana carioca para a Copa de 2014 e o corrente evento olímpico.

Não deu. Agora o que se espera é, como na encampação dos ônibus que se encerrou em 1988, a Prefeitura do Rio de Janeiro devolver às empresas de ônibus o direito de exibir suas respectivas identidades visuais. Não vale mudar o leiaute da pintura padronizada e trocar o seis por meia dúzia. É hora de cada empresa de ônibus carioca mostrar sua cara própria. Só falta vontade política para isso.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

PINTURA PADRONIZADA FAVORECE CORRUPÇÃO POLÍTICO-EMPRESARIAL

FLORIANÓPOLIS É UMA DAS CIDADES INVESTIGADAS PELO CADE POR CAUSA DE FRAUDES EM LICITAÇÃO.

A pintura padronizada, que coloca empresas de ônibus diferentes sob um mesmo visual, comprovadamente não traz transparência nem garante a facilidade de identificação. O secretário de Transportes de plantão pode tentar desmentir com todo um palavreado técnico, mas a verdade é que a pintura padronizada complica mais do que facilita no sistema de ônibus de cada cidade ou região.

Os cariocas já sentem o drama. Linhas trocando de empresas, empresas trocando de nome e razão social, grupos empresariais poderosos aumentando poder de ação e interferindo no processo eleitoral, fazendo tudo para seus candidatos serem eleitos. Tudo isso revela que a pintura padronizada nos ônibus serve de lona para esse triste circo dos horrores da corrupção político-empresarial.

Uma reportagem do G1 informa que o CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) investiga fraudes em licitações nos sistemas de ônibus de 19 cidades. O CADE analisa casos que envolvem os processos que beneficiam as oligarquias Constantino e Gulin.

Casos como Rio de Janeiro, Niterói, São Paulo, São Gonçalo, Nova Iguaçu, Recife, Curitiba e Belo Horizonte também têm suas fraudes e irregularidades, mas elas envolvem outros grupos empresariais que fogem do foco de investigações do CADE.

Quase todas as cidades envolvidas adotam pintura padronizada ou passaram a adotar nos processos de licitação: Brasília (DF), Campo Grande (MS), Florianópolis (SC), Foz do Iguaçu (PR), Guarapuava (PR), Jaú (SP), Joinville (SC), Marília (SP), Maringá (PR), Paranaguá (PR), Piraquara (PR), Pontal do Paraná (PR), Porto Seguro (BA), Telêmaco Borba (PR), São José do Rio Preto (SP), São Sebastião (SP), Sete Lagoas (MG) e Uberlândia (MG).

A pintura padronizada, na medida em que iguala empresas de ônibus com um mesmo visual, com os nomes das empresas colocados em ênfase menor do que o do nome do município ou da região de cidades referente ao serviço de ônibus, confunde os passageiros e, ao esconder empresas, impede que a sociedade possa ver com transparência a natureza do sistema de ônibus.

Portanto, é uma licitação estranha, que esconde as empresas licitadas. A exibição de pequenos logotipos ou dos nomes das empresas nos letreiros digitais não resolve o problema, até porque, na correria do dia a dia, a pintura padronizada nos ônibus sempre confunde os passageiros, e muitas vezes confunde até quem acha que não vai ficar confuso com ela.

Mas, pior do que isso, isso não garante transparência e os passageiros têm mais dificuldade de identificar de imediato uma empresa boa ou ruim, já que ambas são iguais. E esse verdadeiro véu serve para acobertar a corrupção que transforma o serviço de ônibus num grave risco de insegurança e acidentes para os passageiros.

sábado, 9 de julho de 2016

MOVIMENTO PASSE LIVRE PERDEU CHANCE DE CRESCER PROTESTANDO CONTRA PINTURA PADRONIZADA


Muitos movimentos ativistas, às vezes, perdem o cartaz e murcham quando estreitam demais sua pauta reivindicatória e deixam de lutar por certas causas que poderiam trazer mais popularidade e prestígio para seus manifestantes.

A experiência do Movimento Passe Livre e outros movimentos juvenis que, a princípio, pareciam criar uma "primavera brasileira" em 2013, virou um fogo de palha quando o pessoal se recusou a lutar contra uma das piores coisas feitas para o transporte coletivo: a pintura padronizada nos ônibus, que esconde empresas aos olhos da população, causando confusão e permitindo a corrupção.

Presos a uma inútil "empresofobia", um horror burro às empresas de ônibus que faz com que se aceite o mascaramento político dos "consórcios" e outros critérios, medida que, para a corrupção empresarial, equivale a um incêndio sendo combatido com querosene.

A argumentação era sempre niilista: "eliminar a pintura padronizada nunca resolverá o problema dos ônibus". Em princípio, é até verdade. Mas, com cada empresa de ônibus exibindo sua identidade visual própria, há muito mais transparência e os passageiros podem reconhecer de imediato qual a empresa de ônibus que presta um pior serviço.

Imaginemos se, caso já tivesse sido implantada a pintura padronizada no DETRO, como seria a situação da Turismo Trans1000 e da Viação Nossa Senhora da Penha se tivessem literalmente a mesma pintura. Se já foi difícil combater a Transmil que, por incrível que pareça, tinha uma blindagem violenta de políticos e até de busólogos, imagine tendo o mesmo visual da NS Penha, bem mais eficiente e com boa frota.

Nenhum argumento consegue sustentar a pintura padronizada, e as alegações "técnicas", "estéticas", "moralistas" etc remetem mais àquela mania de justificar arbitrariedades do grupo político de Eduardo Paes, inspirado neste caso pelo mito urbanista de Jaime Lerner, político originário da ditadura militar, e que o Brasil conheceu através das desculpas sobre as medidas retrógradas tomadas pelo presidente interino Michel Temer ou pelo deputado afastado Eduardo Cunha.

No Rio de Janeiro, a medida da pintura padronizada se mostrou fracassada. Não é preciso esperar até 2030 para cancelar a medida, ela pode ser feita na próxima semana, mesmo. Falta só vontade política, mas sobretudo falta indignação popular, até porque os prejuízos relacionados aos ônibus "iguaizinhos" se tornam evidentes.

As frotas dos ônibus municipais do Rio de Janeiro estão sucateadas, os acidentes aumentaram e a corrupção, mascarada pelo visual dos "consórcios", aumentou vertiginosamente. Empresas trocam de linhas, mudam o nome, mudam a razão social, e ainda "compensam" a fachada "disciplinadora" do padrão visual com irregularidades na documentação.

Teve City Rio se dividindo em Via Rio e Vigário Geral e o povo nem percebeu. Os estudantes do Fundão (campos da UFRJ em Bonsucesso) nem perceberam a City Rio virando Vigário Geral e depois City Rio e depois VG. Teve também Saens Peña mudando de nome para NS Graças e ninguém percebeu.

Teve linha trocando de empresa, e não só a pintura permaneceu igual como o péssimo serviço também. A Pavunense abocanhou algumas linhas do Centro e seus carros são tão sucateados quanto as antigas operadoras. E houve Caprichosa (empresa da Zona Norte) indo para a Zona Sul, Real Auto Ônibus indo para o Méier e o pessoal nem percebeu, dando dinheiro para alimentar o poder de certos empresários em detrimento de outros.

Os estudantes são os que mais têm risco de pegar ônibus errados. pelo ritmo frenético e pelo espírito bastante movimentado que têm. E ninguém percebe o risco que é pegar o ônibus errado num sistema decadente desses.

Vide o caso da tragédia com o ônibus da linha 328 Bananal / Castelo, da Paranapuan, que poderia ser confundido com um ônibus da linha 239 Água Santa / Castelo, da Verdun, ou 378 Marechal Hermes / Castelo, da Vila Real, para não dizer o 326 Bancários / Castelo, da Ideal. Imagine um cara não só pegar um ônibus errado como morrer na queda do veículo no Viaduto de Bonsucesso?

E aquela pessoa que vai feliz da vida para o Maracanã, num domingo, e, querendo pegar um ônibus para o Grajaú, pega um para o Jacarezinho, numa tarde de domingo e, assustado, decide desembarcar numa área do bairro de Triagem, uma atitude improvisada que pessoas vindas de outros Estados ou do exterior costumam fazer. E aí tais pessoas passam por uma área onde bandidos, desconfiados, as rendem e as matam.

O Movimento Passe Livre desconheceu tais dramas e tantos transtornos e irregularidades. O direito de ir e vir na "cabra-cega" dos ônibus padronizados é tortura para os cidadãos de várias cidades do país e o fato de que essa medida dura muitos anos em São Paulo, Curitiba e Belo Horizonte não quer dizer que ela tenha que prevalecer mais tempo no Rio de Janeiro.

Alguém por exemplo iria aceitar que uma arbitrariedade política como a polícia dar surra em manifestantes fosse mantida em tal cidade, só porque ela é praticada mais tempo em outras cidades bem mais influentes?

Daí que as manifestações do MPL perderam a chance de derrubar a pintura padronizada nos ônibus de várias cidades. Não teríamos o papelão de Nova Iguaçu em que os políticos mentiram feio e apenas botaram carros velhos com pintura nova. E os paulistas, por exemplo, se livrariam da confusão que é o sistema de ônibus de lá.

Com isso, o MPL perdeu a chance de se destacar na opinião pública, se fechando demais no papo de protestar contra o aumento das passagens. Isso porque não adianta lutar para reverter o aumento para R$ 3,80 voltando a ser R$ 3,40 se o estudante vai pegar ônibus errado e, numa tarifa de R$ 3,40, pagar R$ 6,80 nestas ocasiões.

O Movimento Passe Livre não revelou líderes, não projetou ativistas e ainda ficou "queimado" na sociedade como um grupo ensimesmado, rígido e sem diálogo com a sociedade. Se lutasse contra a pintura padronizada nos ônibus, que é a fonte de muita corrupção nas empresas de ônibus, o MPL teria tido uma repercussão bem melhor, se destacando como um movimento ativista que falta na nossa sociedade brasileira.

Sem lutar contra a pintura padronizada, o MPL parou no meio do caminho e se estacionou numa manifestação que acabou abrindo caminho para Black Blocs, Revoltados On Line e outros grupos autoritários que só fizeram piorar o cenário político de nosso país.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

VÍDEO CITA EXTINÇÃO DA LIGAÇÃO ZONA NORTE x ZONA SUL COMO FORMA DE DISCRIMINAR OS POBRES NO RJ

OS ACIDENTES COM OS ÔNIBUS "PADRONIZADOS" SÃO APENAS UM ASPECTO DA TRAGÉDIA CARIOCA.

Um vídeo mostra o quanto o PMDB, que se vê em uma administração retrógrada e corrupta no Governo Federal, já mostrou seus "podres" no Rio de Janeiro. Essa reportagem mostra os artifícios que as autoridades e os dirigentes olímpicos fazem para esconder o povo pobre e discriminá-los, garantindo um espetáculo turístico e esportivo somente para as elites.

A reportagem cita a extinção das linhas que passavam por Ramos até o Cosme Velho - 497 e 498 - como um meio de "higienizar" os acessos para o Corcovado, e as extinções de linhas com destino para as praias de Ipanema e Copacabana, restritas, quando muito, à Rua Siqueira Campos, junto à Estação do Metrô e no caminho para o morro Pavão-Pavãozinho.

Os noticiários internacionais estão cada vez mais preocupados com a decadência vertiginosa do Rio de Janeiro, antes considerado Estado-modelo para o Brasil e sua capital, cidade-modelo (apesar de seus defeitos típicos, como o crime organizado, o RJ ainda se vendia como "exemplo a ser seguido por todo o país), embora a chamada "boa sociedade carioca" até hoje esnobe essa decadência.

De vez em quando se vê, por exemplo, senhores de idade que comentam os noticiários com uma aparente ironia mordaz. "Não tem mais jeito no Rio de Janeiro". Não nos iludamos: é gente feliz e conformista fingindo indignação só para impressionar os amigos, mas que na verdade trata os problemas que atingem o RJ como se fossem uma piada.

Dias atrás, uma médica foi assassinada quando passava por um trecho da Linha Vermelha. Hoje de manhã mais houve mais um acidente com os tais "ônibus padronizados" do Rio de Janeiro, deixando seu habitual saldo de muitos feridos, no Centro carioca. A decadência do RJ está tão feia que até o sucessor de David Letterman, o apresentador Stephen Colbert, dos EUA, disse que o Rio 2016 "poderá ser uma catástrofe".

São fatos que refletem que a decadência do Rio de Janeiro (e lembremos de uma Niterói que se reduziu a uma "roça", com estabelecimentos comerciais de fechando enquanto o prefeito ganha prêmio de "empreendedor" com tanto "negócio fechado") vai muito além aos índices normais de uma metrópole pós-moderna, o que indica que a decadência do RJ é bem mais preocupante.

 

quinta-feira, 16 de junho de 2016

RETROCESSOS DO GOVERNO TEMER FORAM "ANTECIPADOS" PELA MOBILIDADE URBANA NO RJ

O PREFEITO DO RIO DE JANEIRO, EDUARDO PAES, E O PRESIDENTE INTERINO, MICHEL TEMER. PAES ESTABELECEU UM SISTEMA INTEGRADO... 

Os retrocessos políticos e sociais que culminaram no governo interino do presidente Michel Temer tiveram seus equivalentes no modelo de mobilidade urbana e sistema de ônibus lançados por Eduardo Paes em 2010.

Várias ocorrências desagradáveis relacionadas ao transporte no Rio de Janeiro já antecipavam vários aspectos: partidarização de concessão pública, atuação de cyberbullying defendendo o "estabelecido", terceirização das relações de consumo entre empresas e passageiros, atuação frouxa do Judiciário e outros prejuízos.

Era como se o sistema de ônibus do Rio de Janeiro fosse o equivalente dos desmandos e retrocessos direta ou indiretamente relacionados ao atual cenário político nacional, que sofre denúncias de escandalosos esquemas de corrupção que, não por acaso, estabelecem um "sistema integrado" com os mesmos políticos cariocas que impuseram o amargo combo do sistema de ônibus carioca: pintura padronizada, dupla função de motorista-cobrador e itinerários esquartejados.

Muitas ocorrências relacionadas ao transporte carioca poderiam muito bem ter vindo das mentes de Eduardo Cunha, não o respeitável busólogo que, por mera coincidência, tem o mesmo nome, mas pelo tenebroso deputado federal que se destaca nos noticiários de todo o país e hoje é presidente afastado da Câmara dos Deputados.

...COM O DEPUTADO EDUARDO CUNHA.

Vários aspectos mostram paralelos entre o que acontece no sistema de ônibus carioca - que sucumbiu a uma decadência vertiginosa - e o governo Temer, e teve até busólogo que, ao defender a pintura padronizada nos ônibus, surtou e foi fazer cyberbullying criando até blogue de calúnias, numa atuação típica dos hoje conhecidos "midiotas" e "fascistas mirins" da Internet. Vamos a eles:

1) PINTURA PADRONIZADA NOS ÔNIBUS

Arbitrariedade imposta por Eduardo Paes sem consultar a população, e meses depois lançando mão de ofensas como "eliminar as embalagens de azeite português" das pinturas dos ônibus, o prefeito carioca realizou uma votação às escuras, pela base aliada da ALERJ, determinando que diferentes empresas de ônibus tivessem a mesma pintura, conforme regiões de bairros e tipos de ônibus usados.

A imposição dessa medida impopular, que nunca teve o apoio, até hoje, da população, lembra muito as manobras do deputado Eduardo Cunha em impor suas "pautas-bombas" e a um projeto político e autoritário defendido por Michel Temer.

E isso sem falar que esse negócio de impor pintura padronizada é uma atitude originária da ditadura militar, lançada em Curitiba pelo político da ARENA, Jaime Lerner, arquiteto que tinha uma visão tecnocrática comparável a de Roberto Campos (e hoje herdada pelo ministro da Fazenda Henrique Meirelles) e um apetite administrativo comparável ao de José Sarney e Paulo Maluf, só para citar dois "dinossauros" da ditadura que hoje apoiam o governo Temer.

2) ATUAÇÃO FROUXA DO PODER JUDICIÁRIO

A fraca atuação de setores do Poder Judiciário, em relação a políticos do PSDB e PMDB envolvidos em escândalos de corrupção, das quais se destacam juristas de atuação duvidosa como Gilmar Mendes e Sérgio Moro, na qual se destaca uma conduta desigual diante de acusados ligados ao PT e outros ligados ao PSDB, teve também seu equivalente no sistema de ônibus carioca.

Só o caso da pintura padronizada rendeu, pelo menos, dois processos judiciais contra a medida, com justificativas bastante consistentes que não convenceram os advogados do Ministério Público do Rio de Janeiro. Estes se mostraram juridicamente fracos, aceitando desculpas que a pintura padronizada "permite a identificação" através do código alfanumérico.

Um funcionário do MP-RJ em Niterói, comentando a pintura padronizada imposta no transporte municipal, parecia ter encarnado o "cafajestismo" de Gilmar Mendes, adotando uma postura parcial, dizendo que as empresas "agora não são reconhecidas pela cor, mas pela zona".

3) PONTE PARA O FUTURO

Será a "ponte" de Michel Temer uma passarela para o BRT? Em todo caso, são fachadas futuristas para medidas retrógradas. A construção de pistas para o BRT derrubaram áreas ambientais e casas populares, e o projeto em si já é retrógrado, correspondendo aos padrões de 40 anos atrás, demonstrando não oferecer respostas concretas para o transporte público.

Superestimou-se o modelo de ônibus articulados, que aparentemente eram uma novidade no Rio de Janeiro, e uma euforia descomunal chegou a haver, antes que o sistema demonstrasse seus equívocos e tragédias.

Além disso, houve um erro de interpretação comparativa. Afinal, um BRT pode ser considerado longo e espaçoso para os padrões de um ônibus convencional, mas, em relação a outras modais de transporte público como um trem, o BRT corresponde a um "micrão".

4) CYBERBULLYING

Um conhecido busólogo da Baixada Fluminense havia surtado e, defendendo a pintura padronizada nos ônibus, passou a brigar com muita gente. Ele adquiriu um reacionarismo que, nas atitudes e na agressividade, equivaleu ao deputado Cunha, usando uma linguagem sarcástica típica de trogloditas midiáticos como Reinaldo Azevedo e Diogo Mainardi.

O busólogo fazia baixarias nas mídias sociais (incluindo Orkut, Facebook, Fotopages e o fórum do Ônibus Brasil), implicando até com o estado civil de certos busólogos. Se um busólogo desafeto se divorciar, por exemplo, o valentão o definiria como "corno". A discussão sobre ônibus se perdia em ataques morais gravíssimos. O valentão agia aliado a pelo menos dois outros busólogos, às vezes se camuflando em fakes.

Um blogue de calúnias foi lançado usando um fake chamado "crítico". O blogue, "Comentários Críticos", seria feito para destruir a busologia caluniando, por etapas, aqueles que o valentão gostaria de tirar do hobby, complementando as difamações que ele despejava nas redes sociais.

Cada etapa do blogue correspondia a ataques e ironias pessoais contra os desafetos do momento. A linguagem lembrava os textos de Reinaldo Azevedo e Diogo Mainardi, através da reprodução leviana e ofensiva de textos alheios.

O blogue foi extinto depois que ele foi denunciado para o SaferNet, página que acolhe denúncias sobre crimes diversos, sobretudo digitais. Dizem que um amigo pessoal do busólogo teria denunciado aos parceiros a autoria verdadeira do blogue ofensivo, provocando um escândalo no hobby. O valentão também era conhecido pela defesa radical do governo de Eduardo Paes.

O cyberbullying passou a repercutir negativamente em todo o Brasil depois que ataques similares foram feitos à jornalista Maria Júlia Coutinho e as atrizes Taís Araújo, Cris Vianna e Sheron Menezzes, por não seguirem, sendo negras, do padrão de valores reacionários que costuma ser defendido pelos valentões digitais.

5) TEORIA x PRÁTICA

O prefeito Eduardo Paes dizia que a pintura padronizada nos ônibus iria eliminar a poluição visual. Na prática, a medida só agravou a poluição, sobretudo devido ao fato de que as cores adotadas no Rio de Janeiro, com um fundo cinza, dão aos ônibus um aspecto de sujos.

Embora não fosse o caso do Rio de Janeiro (embora a "sopa de letrinhas" dos códigos alfanuméricos deixem os cariocas confusos), em que apenas há um logotipo da prefeitura junto a um nome de consórcio (com o respectivo nome da empresa em menor tamanho), a poluição visual costuma ser uma prática nos ônibus padronizados.

Nota-se a exibição de um monte de logotipos, como o da prefeitura, do consórcio, da paraestatal, do tipo de ônibus (quando é piso baixo), do tipo de serviço etc, cria um monte de informação que desafia a atenção de qualquer um. Em São Paulo isso costuma acontecer.

Mesmo quando se permite mostrar o logotipo da empresa de ônibus, ele se perde diante de tantas informações, seja nas laterais e nas janelas dianteiras, misturadas a outros símbolos, e nos letreiros digitais, alternando com informações que variam de logradouros principais de um percurso a saudações como "Bom Dia", "Feliz Data Comemorativa" e até "Só Jesus Salva".

Outro exemplo de como a teoria se opõe à prática foi a decisão do então secretário de Transportes Rafael Picciani, de uma rica família de políticos (atualmente o cargo voltou para as mãos do tecnocrático Alexandre Sansão), que definiu a extinção de linhas diretas ligando as Zonas Norte e Sul como "otimização" e "racionalização" do sistema.

Ele alegou que o fim, junto à redução das frotas de ônibus em circulação, iria "facilitar a fluidez do trânsito". A prática mostrou-se o contrário: com menos ônibus nas ruas, mais automóveis e, portanto, mais congestionamentos. E os passageiros, obrigados a fazer baldeação, tinham tempo limitado de uso do Bilhete Único e, no fim, tinham que gastar mais de uma passagem.

A equivalência do governo de Michel Temer está nas promessas que ele traz para "resolver a crise" e "garantir a democracia", através de planos políticos e econômicos que se destinam a eliminar conquistas e garantias sociais, várias delas previstas na Constituição Federal.

6) INFRAÇÕES LEGAIS

A pintura padronizada nos ônibus, a dupla função motorista-cobrador e o esquartejamento de itinerários através de linhas "troncais" e "alimentadoras" envolve uma série de infrações legais que vão desde a Constituição de 1988 até a Lei de Licitações (8.666/93).

A pintura padronizada contraria artigos da Lei de Licitações a respeito de natureza do serviço (como concessão pública a particulares, o poder concedente não pode estabelecer supremacia de imagem, pois deveria dar às concessionárias o direito de ter identidade visual própria) e a funcionalidade, já que nenhuma funcionalidade existe no fato de empresas diferentes apresentarem uma mesma pintura.

Da mesma maneira, a pintura padronizada também contraria o Código de Defesa do Consumidor (8.078/90), por forçar o apoio da população através de promessas que fogem do foco específico da medida, como implantar frotas com ar condicionado e com chassis potente, medidas sem relação alguma com pintura de ônibus.

A dupla função motorista-cobrador infringe os direitos trabalhistas já conhecidos, e representa um abuso do poder econômico das empresas e do poder político relacionado. E o esquartejamento de percursos é visto como um abuso de autoridade política contra a população, já que a medida é feita contra o interesse popular, que nem sempre pega ônibus para se divertir e, portanto, não pode perder tempo com baldeações sem necessidade.

Isso encontra analogia em propostas defendidas pelo deputado Eduardo Cunha, Michel Temer e Aécio Neves, que se voltam contra artigos da Constituição Federal e garantias sociais diversas, incluindo a Consolidação das Leis Trabalhistas, uma das cartas legais ameaçadas pelo governo Temer através de sua reforma trabalhista.

7) RETROCESSO E DISCRIMINAÇÃO SOCIAL

Se o governo de Michel Temer é conhecido por impor retrocessos sociais de toda ordem, contrariando avanços e conquistas históricos obtidos com muito sacrifício nas últimas décadas, o sistema de ônibus do Rio de Janeiro também representou retrocessos diversos.

Só o caos que são os ônibus cariocas, em que até empresas tradicionais como Real, Alpha, Braso Lisboa, Ideal, Matias e Tijuquinha apresentam frota sucateada, se compara ao caos que é o governo Temer com seus sucessivos escândalos.

O Plano Temer, intitulado "Ponte para o Futuro", estabelece critérios de discriminação social, a partir da substituição de diretores e secretários de instituições diversas, de presidentes ou diretores de autarquias até ministros, por pessoas sem compromisso com os movimentos sociais, mas meros tecnocratas ou políticos carreiristas.

Outro exemplo de discriminação social do governo Temer foi a composição de seu ministério, feita só de homens e brancos, sem representatividade de mulheres e negros. As mulheres foram só tardiamente escolhidas para postos de segundo escalão, depois de muita pressão social.

No sistema de ônibus do Rio de Janeiro, a pintura padronizada já mostrava sua discriminação social pela divisão de consórcios e isso enfatizava o caso do Consórcio Santa Cruz (extrema Zona Oeste), voltada para bairros predominantemente pobres e, de tão maltratada, sofreu mais extinção de empresas operadoras.

Outra discriminação social associada a ônibus foi a medida do esquartejamento de percursos, seja no corredor Penha-Alvorada, seja no fim das ligações Zona Norte-Zona Sul, que criava dificuldades para a população pobre se deslocar para bairros litorâneos (Zona Sul, Barra da Tijuca e Recreio), não só para ir à praia, mas também para trabalhar, fazer compras e se encontrar com amigos.

8) CORRUPÇÃO

À corrupção do governo de Michel Temer e seus aliados, notada desde a votação de 17 de abril último pela abertura do processo de impeachment de Dilma Rousseff e culminada com as denúncias divulgadas por Sérgio Machado, se compara a corrupção do sistema de ônibus carioca.

O sistema de ônibus foi partidarizado sob o fardo e a farda da pintura padronizada, da fachada dos consórcios e do aumento de poder do secretário de Transportes, convertido de fiscal para chefão. Isso permitiu o aumento da politicagem do setor e uma CPI dos Ônibus chegou a ser organizada, mas aliados de Eduardo Paes empastelaram o processo obtendo o controle da própria investigação.

CONCLUSÃO

Bem antes dos retrocessos do governo Temer e alguns fatos associados, o sistema de ônibus do Rio de Janeiro apresentou situações análogas ao que se observa no âmbito geral da política e da sociedade.

De políticos corruptos mas demagogos - eles tentam desmentir o que fazem - a reacionários na Internet, o quadro demonstra o quanto o Brasil desgovernado havia sido anunciado por um suposto plano de mobilidade urbana que prejudicou os passageiros de ônibus no Rio de Janeiro e impôs uma série de retrocessos no transporte coletivo em outras capitais.

A influência dos retrocessos cariocas já tem paralelos quando o modelo decadente de sistema de ônibus implantado no Rio de Janeiro se espalhou até em Recife, Florianópolis, Teresina e Nova Iguaçu, e os retrocessos políticos do Brasil se devem à prepotência de um membro do PMDB carioca, o deputado Eduardo Cunha. Lições amargas que foram dadas a todo o país.

domingo, 22 de maio de 2016

VALE A PENA ESCONDER EMPRESA DE ÔNIBUS EM NOME DA MOBILIDADE URBANA?

ACIDENTE DE ÔNIBUS EM CURITIBA - DECADÊNCIA DO SISTEMA.

O começo do governo de Michel Temer está demonstrando, em diversos aspectos, os cacoetes do fisiologismo político. Medidas autoritárias que são impostas sob o pretexto de "beneficiar a sociedade" e "atender ao interesse público", se apoiando de argumentos "técnicos" e prometendo "futuros ajustes para otimização".

No âmbito do transporte coletivo, a gente viu esse filme de terror e suspense através de Jaime Lerner, um político da ditadura militar tido falsamente como "futurista" e "progressista". quando ele lançou medidas impopulares como pintura padronizada nos ônibus, redução de frotas nas ruas, dupla função motorista-cobrador e redução de percursos de linhas de ônibus.

É até surreal que o mesmo motivo de queixas dos passageiros, as longas esperas por ônibus por conta da quantidade limitada de ônibus, seja aplaudido por uma estranha elite de busólogos, mais preocupada em ocupar assentos na Secretaria de Transportes ou na Assembleia Legislativa.

Já houve busólogo, no Rio de Janeiro, que anos atrás surtou como se um Eduardo Cunha (o deputado, não o admirável busólogo veterano) do setor, criando blogue de calúnias e ofendendo fulano e sicrano nas mídias sociais, fazendo trolagem usando fakes mas se passando por "bonzinho" e "correto" diante dos busólogos mais conceituados, quando defendia a pintura padronizada nos ônibus.

Isso revela um rol de irregularidades, num sistema político e tecnocrático viciado que temos, em que até o Judiciário prefere enxergar mais as conveniências políticas do que as leis. E mostra o contexto em que prevalece um sistema de ônibus que se baseia num ato sempre duvidoso de esconder a identidade visual das empresas.

As autoridades tentam argumentar, sem convencer, que a pintura padronizada "favorece a identificação". Alguns, de forma aberrante, falaram que a identidade da empresa está no código alfanumérico do veículo. Outros, pelo pequeno logotipo exibido em cada ônibus, na lataria ou na janela. Tudo isso de forma inverossímil e improcedente, mas típico da demagogia de quem arruma desculpa para qualquer coisa.

Isso não convence porque basta ver a prática cotidiana. Na correria do dia a dia, as pessoas não têm tempo de ver o logotipo da empresa de ônibus perdido entre tantos adesivos na janela da frente nem em saber, por exemplo, a diferença entre B75561 e B25561.

Só nas mentes reacionárias de certos busólogos é que há essa ideia de que o povo vai ficar perdendo tempo observando ônibus de forma demorada. Há outras ocupações na vida, sem aqui criticar a da busologia, até porque mesmo os busólogos têm outros empregos, têm contas a pagar e no dia dos pagamentos não dá para ficar parado tentando ver a diferença, numa cidade como São Gonçalo, entre uma Transportes Tanguá e uma Transportes Icaraí.

A verdade é que a pintura padronizada esconde empresa de ônibus, sim. No contexto da correria do trânsito, isso faz uma diferença negativa. As pessoas se confundem todas, isso é inegável, e faz com que essa medida não traga vantagem alguma.

A pintura padronizada nos ônibus é tecnicamente inviável, não é funcional, não traz transparência nem favorece a mobilidade. E é uma medida que remete à ditadura militar, com aquela lógica de botar uniforme ou farda, típico de regimes fascistas.

Negar tudo isso é negar o óbvio, negar um dos aspectos que contribuem para a decadência do sistema de ônibus porque a pintura padronizada, na medida em que esconde as empresas de ônibus, favorece a corrupção e a queda de qualidade de serviço. Muitas empresas aproveitam a pintura padronizada para mudar de nome, trocar de linha etc, sem que as pessoas tenham exata noção disso.

É certo que recuperar as identidades visuais de cada empresa não irá melhorar, por si, o sistema de ônibus, mas permitiria aos passageiros comuns reconhecer com mais facilidade uma empresa ruim. Já imaginou se, por exemplo, uma Turismo Trans1000 e uma Viação Nossa Senhora da Penha tivessem exatamente a mesma pintura? Seria muito mais difícil combater a Transmil.