sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

BILHETE ÚNICO INTERMUNICIPAL VOLTA, MAS SOFRE REAJUSTE E RESTRINGE USO


A Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro aprovou as mudanças que viabilizaram a retomada do Bilhete Único Intermunicipal, que chegou a ser cancelado na última segunda-feira. Diante da séria crise financeira do Estado do Rio de Janeiro, o não repasse de verbas públicas fez não só o Bilhete Único ficar comprometido, mas mesmo linhas de ônibus intermunicipais foram ameaçadas de saírem de circulação.

As mudanças aprovadas no plenário na ultima quinta-feira estabeleceram um reajuste da tarifa integrada, que era de R$ 6,50 para R$ 8,00. e restringiu o benefício para passageiros que ganham um salário de até R$ 3 mil. A medida busca resolver as dívidas das empresas operadoras do sistema, que está em torno de R$ 10 milhões.

NAS LINHAS MUNICIPAIS, BILHETE ÚNICO FOI PIVÔ DE ILEGALIDADE

Quando, na reformulação do sistema de ônibus municipal do município do Rio de Janeiro, o prefeito Eduardo Paes impôs a pintura padronizada - que coloca diferentes empresas de ônibus sob uma mesma identidade visual - , houve, entre várias infrações legais, uma que atinge diretamente o consumidor, no caso os passageiros de ônibus.

No Código de Defesa do Consumidor, lei de número 8.078, de 11 de setembro de 1990, no artigo 39, inciso IV, se observou a infração cometida por Paes, que impôs a pintura padronizada em troca de promessas como BRT, ônibus refrigerados e Bilhete Único, que em tese permitiria aos cariocas fazer várias viagens pagando uma só passagem (não havia divulgação dos critérios e restrições hoje conhecidos). O texto descreve:

 Art. 39. É vedado ao fornecedor de produtos ou serviços, dentre outras práticas abusivas:

 IV - prevalecer-se da fraqueza ou ignorância do consumidor, tendo em vista sua idade, saúde, conhecimento ou condição social, para impingir-lhe seus produtos ou serviços;

Além de impor uma medida impopular e prejudicial aos passageiros, que precisam aumentar a atenção para não pegar um ônibus errado, seu apoio é forçado pela Prefeitura do Rio de Janeiro se aproveitando da fraqueza e da ignorância do consumidor.

Dessa forma, se impinge (forçar a aceitação) da pintura padronizada nos ônibus - que, na prática, favorece a corrupção político-empresarial - usando como motivos coisas que nada têm a ver, como a aquisição de ônibus com concepção avançada (piso baixo, articulados e/ou refrigerados) e um desconto nas tarifas de dois ônibus, se aproveitando da desinformação e da fraqueza da população, que acaba aceitando medidas que valem mais pelo sensacionalismo que pela funcionalidade.

OCASO POLÍTICO: HORA DE DESPADRONIZAR

Passaram a Copa do Mundo e as Olimpíadas e toda a razão de ser dos ônibus padronizados de Eduardo Paes, com sua pintura de embalagem de remédio que tentou forçadamente se somar à paisagem carioca, mas que se tornaram de triste lembrança para o povo do Rio de Janeiro.

Com a farra política denunciada por reportagens e investigações jurídicas - mesmo algumas bastante tendenciosas, como a Operação Lava Jato - , o grupo político de Eduardo Paes vive seu ocaso político, com seus três principais personagens envolvidos em encrencas.

O atual governador do Estado do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, colocou sua popularidade - que já não era lá essas coisas - em risco fatal quando anunciou um austero programa de corte de gastos, que só não foi pior porque parlamentares e sindicalistas acabaram pondo freios no plano original.

Sérgio Cabral Filho, antecessor de Pezão (que havia sido seu vice), foi preso por suspeitas de liderar um poderoso esquema de corrupção que resultou em mais de R$ 220 milhões em propinas. Era idolatrado até por uma parcela de busólogos que fazia "patrulha ideológica" para forçar o apoio de seus pares à pintura padronizada nos ônibus.

Recentemente, foi Eduardo Paes mais um encrencado, ele que não conseguiu eleger seu sucessor e seu ex-secretário, Pedro Paulo Carvalho, derrotado pelo pastor evangélico Marcelo Crivella (cujo vice, o engenheiro Fernando MacDowell, declarou ser contra a pintura padronizada nos ônibus).

Em virtude de uma ação que investiga possíveis casos de improbidade administrativa nas obras destinadas às Olimpíadas Rio 2016, Eduardo Paes teve seus bens bloqueados numa ação referente às obras de construção de um campo de golfe olímpico, na Barra da Tijuca.

Os bens servem para quitar a multa de R$ 2,3 milhões pelo fato do prefeito carioca não ter cobrado de uma construtora o valor de R$ 1,8 milhão em licenças ambientais para a obra do campo de golfe, que removeu vegetação considerada exótica numa extensão de 61.000 m², área equivalente a oito campos de futebol.

Paes desmente que tenha deixado de cobrar a licença ambiental e dispensado a construtora de tal responsabilidade, afirmando que não só cobrou a licença como estabeleceu o valor de R$ 3,365 milhões, com juros acrescidos. O prefeito entrou com recurso contra a ação do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro.

Diante dessas crises, o grupo político que, atropelando a vontade popular, impôs a pintura padronizada nos ônibus, entrou em declínio. É hora de devolver a cada empresa de ônibus carioca o direito de exibir a sua respectiva identidade visual.

Não vale trocar a estampa e manter a pintura padronizada, porque é trocar seis por meia-dúzia, e isso nada resolveu nas cidades que apenas "mudaram a embalagem" da pintura padronizada. Portanto, a tendência agora é parar de esconder empresa sob a "embalagem" de consórcios, tipos de ônibus, zonas de bairros ou coisa parecida. O povo está farto disso, como se vê nas ruas das grandes cidades.

domingo, 4 de dezembro de 2016

CRISE FAZ ESTADO DO RJ SUSPENDER BILHETE ÚNICO INTERMUNICIPAL


Diante da crise generalizada que vive o Estado do Rio de Janeiro, que se reflete principalmente na Economia, o Bilhete Único das linhas intermunicipais não só de ônibus mas também de Barcas, Metrô e o trem, será suspenso a partir de segunda-feira.

A informação foi divulgada em conjunto pela Fetranspor, SuperVia, Metrô Rio e CCR Barcas. As vans também não terão mais o benefício do desconto tarifário na integração dos transportes coletivos. A medida valerá a partir de 0h e os passageiros terão que pagar mais uma tarifa comum.

"A suspensão está prevista na Lei estadual nº 5.628/2009, cujo artigo 21 determina que, na hipótese de o Estado não depositar o valor do subsídio, ficam os concessionários e permissionários do serviço desobrigados a efetuar a tarifa integrada para os passageiros que utilizam o Bilhete Único Intermunicipal", afirma a nota conjunta.

A Secretaria de Transportes do Governo do Estado do Rio de Janeiro afirmou que o atraso dos pagamentos se deu pela crise que força o governador Luiz Fernando Pezão a propor um austero corte de gastos. No entanto, o órgão afirmou que estuda um meio para arcar com as despesas com as concessionárias e reestabelecer o benefício para os passageiros.

MUNICIPAIS - Não houve informação nem rumores sobre o fim do Bilhete Único nas linhas municipais do Rio de Janeiro. Mas imaginemos que não houvesse revertida a medida do fim da ligação direta das Zonas Norte e Sul por ônibus e o Bilhete Único municipal tivesse sido suspenso.

Como seria complicada a vida dos passageiros diante desta situação. Não fosse a ação do Ministério Público do Rio de Janeiro e o fato de que a suspensão não atingisse o uso de cartão eletrônico nas linhas municipais, os passageiros teriam que pagar mais de uma passagem.

A crise financeira se deu pela própria farra política do PMDB carioca. O grupo político chegou a ser blindado por uma parcela de busólogos cariocas, que chegou a fazer uma agressiva "patrulha ideológica" para defender a pintura padronizada e outras medidas impopulares. Um busólogo da Baixada Fluminense, adepto de Eduardo Paes e Sérgio Cabral Filho, chegou a fazer um blogue calunioso contra desafetos, mas, depois de denunciada para a SaferNet, a página foi tirada do ar.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

VÍNCULO DE IMAGEM DE GOVERNOS A ÔNIBUS É UM FARDO, NÃO UM PRIVILÉGIO

ÊNFASE NO LOGOTIPO DA PREFEITURA DO RIO DE JANEIRO SUGERE QUE ELA É RESPONSÁVEL PELAS FROTAS DE ÔNIBUS.

A pintura padronizada nos ônibus do Rio de Janeiro virou um grande e terrível atropelo de leis e outros princípios. Representando o vínculo de imagem da Prefeitura do Rio de Janeiro - exemplo seguido também por outras cidades fluminenses - , a pintura padronizada comprovadamente nada tem a ver com funcionalidade e transparência.

Pelo contrário, o vínculo de imagem só faz agravar a administração municipal, sobretudo a Secretaria de Transportes, porque a associação visual da pintura padronizada explicitamente se dirige ao poder público, já que as empresas, impedidas de apresentar sua identidade visual, perderam o vínculo de imagem, o que diminui, embora nunca se anule, a sua responsabilidade operacional.

O vínculo de imagem de governos nas frotas de ônibus não pode ser considerado privilégio, mas um fardo. O poder público acaba "compartilhando" seu desgaste com o sistema de ônibus de um município ou região de municípios. A pintura padronizada acaba se "integrando" à crise política e o logotipo de prefeituras ou governos estaduais nos ônibus só faz piorar a reputação dos sistemas de ônibus que já não são aquele primor de eficiência e credibilidade.

A diversidade visual foi cancelada sob acusações indevidas de frescura estética. A prática confirma, no entanto, que, quando cada empresa de ônibus mostra ao público sua respectiva pintura, o vínculo de imagem não representa só embelezamento estético, mas responsabilidade operacional.

Imagine, no caso da Turismo Trans1000, extinta sob pressão de moradores de Nilópolis e Mesquita, houvesse pintura padronizada e a empresa se confundisse, visualmente, com a Viação Nossa Senhora da Penha, que atua na mesma região, na Baixada Fluminense.

Tendo a mesma pintura, as duas empresas não teriam vínculo de imagem, que seria atribuído ao DETRO. E, o que é pior, haveria maior trabalheira para extinguir a Transmil, havendo até o risco da maquiagem, quando a empresa muda de nome e se inventa que ela foi extinta e deu lugar a uma nova empresa. Uma "renovação de frota" de fachada é feita, enquanto nos bastidores a razão social permanece a mesma.

É até ilustrativo que uma parcela de busólogos que faziam "patrulha ideológica" em favor da pintura padronizada nos ônibus também blindavam a Transmil. O que diz muito quanto a redução de um hobby a um reles "partido político" de busólogos que estavam ligados ao grupo político de Eduardo Paes e Sérgio Cabral Filho.

Se Transmil e NS Penha, de desempenhos diferentes, tivessem uma mesma pintura, haveria dificuldades para extinguir a primeira. E quando as empresas privadas perdem o direito (e o dever) de apresentar sua identidade visual, em contrapartida elas também se mostram desestimuladas a prestar um bom serviço. Afinal, a imagem que elas apresentam é do poder público e de sua respectiva Secretaria de Transportes.

Por isso se observa que, no Rio de Janeiro, empresas que antes prestavam serviço de qualidade, como Real Auto Ônibus, Viação Verdun, Rodoviária A. Matias, Transurb, Braso Lisboa e Expresso Pégaso, passaram a mostrar frota sucateada ou com algum tipo de avaria. Por mais de uma vez, dentro dos ônibus da antes conceituada Matias, observa-se goteiras no interior dos veículos refrigerados.

PINTURA PADRONIZADA EM ÔNIBUS FERE ATÉ A CONSTITUIÇÃO

As empresas acabam se desleixando, porque não se acham obrigadas a apresentar um bom serviço. Elas não têm mais a imagem a zelar ao público, e as relações de serviço e consumo se tornam bastante comprometidas.

Outro aspecto a observar é que a pintura padronizada representa a concentração de poder da Secretaria de Transportes. Em vez do secretário de Transportes ter uma função apenas fiscalizadora, ele se torna um chefão do setor, um dublê de empresário de ônibus.

É como se confundisse a função de um sentinela com a de um general. Sob a pintura padronizada (uma medida que toma emprestada uma lógica militar), o secretário de Transportes deveria ser o "vigia", mas torna-se o "general".

Essa crise de responsabilidade e uma série de infrações legais - a pintura padronizada afronta artigos da Lei de Licitações e do Código de Defesa do Consumidor, isso para não dizer que a medida também compromete princípios constitucionais como a livre iniciativa, já que o poder público se torna responsável simbólico das frotas, pelo vínculo de imagem, e não a empresa concessionária "escondida" pela pintura padronizada - faz o sistema de ônibus se tornar um caos irreversível.

Será inútil trocar o modelo de pintura padronizada, substituir a "embalagem de remédio" por algo mais alegre, exibir logotipos pequenos de empresas, etc etc, porque isso é trocar seis por meia dúzia. A ideia deverá ser cancelar a pintura padronizada para que o povo possa voltar a reconhecer as empresas pela identidade visual e assim, se uma empresa prestar um péssimo serviço, ela possa ser identificada com maior facilidade.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

SISTEMA DE ÔNIBUS ESCONDE EMPRESAS MAS QUER VER A CARA DO USUÁRIO DE BILHETE ÚNICO


Segundo notícia publicada hoje no Jornal Extra, os ônibus do Rio de Janeiro já se dispuseram de câmeras de reconhecimento facial, para evitar fraudes no uso do cartão eletrônico, conhecido popularmente como Bilhete Único.

Cerca de três mil ônibus que circulam na cidade do Rio de Janeiro e em municípios como Niterói, São Gonçalo, Nova Iguaçu e Duque de Caxias já estão com o aparelho, apresentado na recente edição do Fetransrio, exposição sobre transporte e mobilidade urbana realizada no Riocentro.

A ideia é dotar todos os ônibus com esse aparelho, além de ampliar sua instalação para catracas de BRT, metrô, trens e barcas. A expectativa é atingir 22.500 ônibus até o fim de março. O aparelho é colocado sobre o validador do cartão eletrônico.

HIPOCRISIA

O problema maior não está nesta medida, que é necessária diante das fraudes que causam um prejuízo mensal de aproximadamente R$ 128 milhões. O problema está num sistema de ônibus que quer ver a cara dos passageiros mas não mostra a "cara" de cada empresa operadora.

Quatro dos citados municípios - Rio de Janeiro, Niterói, São Gonçalo e Nova Iguaçu - apresentam ônibus com pintura padronizada nas linhas municipais. A medida, que confunde os passageiros, mesmo com a apresentação de pequenos logotipos (como em São Gonçalo), que vistos de longe mais parecem rabiscos, também facilita as fraudes do lado dos empresários de ônibus e dos políticos.

Uma licitação que esconde empresas como se estivesse tratando os passageiros como bobos, enquanto seus tecnocratas tentam argumentar o contrário, falando em "transparência" e "facilidade (sic) de identificação", também causa sérios problemas e prejuízos para a população.

Além disso, imaginamos o ônus que é a Prefeitura do Rio de Janeiro, num governo em crise, manter sua logomarca nas frotas de ônibus municipais. Com o vínculo de imagem de prefeituras às frotas de ônibus particulares, é o poder estatal que assume maiores responsabilidades, embora as obrigações técnicas e financeiras coubessem às empresas de ônibus.

A crise política ou mesmo econômica pode afetar isso, diante da imagem negativa do poder público estampada nas empresas de ônibus, que pode não trazer custos financeiros aos governantes e seus secretários de Transporte, mas pode lhes trazer desgaste de imagem e de reputação diante da opinião pública.

Portanto, não seria melhor que se liberassem as empresas de ônibus a também mostrar, cada uma, a sua respectiva "cara"?

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

OCASO POLÍTICO DO RJ INDICA DECLÍNIO DA PINTURA PADRONIZADA

ANTES CONCEITUADA, A EMPRESA RODOVIÁRIA ÂNCORA MATIAS APRESENTA VEÍCULOS COM GOTEIRAS NO SEU INTERIOR, COMO NESTE CARRO.

No último dia 16, uma cena se tornou comum nos ônibus da Rodoviária Âncora Matias (ou Rodoviária A. Matias). No interior de cada veículo, o ar condicionado mal conservado deixa cair goteiras, incomodando os passageiros e molhando os assentos. No caso do dia 16, o veículo B25569 surpreendeu com quase todos os assentos molhados, constrangendo os passageiros.

O sistema de ônibus decaiu depois que a pintura padronizada foi introduzida a fórceps nos ônibus cariocas. Empresas como Real Auto Ônibus e Viação Tijuquinha estão com as frotas quase tão sucateadas quanto a Expresso Pégaso, que também era conceituada e hoje está um lixo.

Isso se dá porque as empresas de ônibus deixaram de ter responsabilidade, até porque o vínculo de imagem, pela própria natureza da pintura padronizada, fica com a Prefeitura do Rio de Janeiro. E o que chama a atenção é que o grupo político de Eduardo Paes anda decaindo de maneira vertiginosa.

Dois episódios simbolizam isso. A crise financeira causada pela farra política, que obriga o governador Luiz Fernando Pezão a fazer um rigoroso corte nos investimentos públicos. Outro episódio é a prisão, hoje, do ex-governador Sérgio Cabral Filho, acusado de promover esquemas de propina e que estava enquadrado na Operação Lava Jato.

Passaram a Copa do Mundo e as Olimpíadas e aquele modelo tecnocrático de sistema de ônibus e mobilidade urbana perderam a sua razão de ser, se é que tinham alguma. E não há como usar o prazo de 2030 para a permanência da pintura padronizada e outros malefícios, sobretudo se verificarmos que seus defensores políticos ceifaram o governo Dilma Rousseff antes do fim do mandato. Se podem fazê-lo, podem cancelar a pintura padronizada na próxima sessão da ALERJ.

Sabe-se que o sistema de ônibus carioca simbolizava esse cenário político que se desgasta e que provocou um grande rombo nos cofres públicos estaduais. A pintura padronizada, com seu aspecto de sujo e velho, também é uma prática decadente, que acabou com o sistema de ônibus municipal, agravando os defeitos existentes e eliminando as virtudes que haviam.

Diante disso, trocar apenas a estampa da pintura padronizada é apenas substituir o seis pelo meia dúzia. A decadência da Era Eduardo Paes / Sérgio Cabral Filho pode indicar também a decadência de um modelo de sistema de ônibus que confunde passageiros, provoca acidentes, adoece motoristas e causa muita tragédia e corrupção. Resta saber quem dará a primeira decisão.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

JAIME LERNER É INVESTIGADO POR POSSÍVEL FRAUDE EM LICITAÇÕES PARA BRT


Agentes da Polícia Federal estiveram hoje de manhã cumprindo mandados de busca e apreensão de documentos no Instituto Jaime Lerner, onde fica o escritório do famoso arquiteto e ex-governador do Paraná, no Bairro Cabral, em Curitiba. A informação foi dada pelo Paraná Portal.

A medida faz parte da Operação Nosotros, que investiga irregularidades na licitação de ônibus BRT (Bus Rapid Transit) em Palmas, no Tocantins. A fraude para obras de construção de pistas teria sido feita no valor de cerca de R$ 260 milhões.

O prefeito reeleito de Palmas, Carlos Amastha, do PSB (partido da base aliada do governo de Michel Temer), poderá ser convocado a depor através do processo de condução coercitiva, medida considerada controversa e irregular, vista por especialistas mais como um ato de efeito e de apelo sensacionalista do que como um processo jurídico normal.

Ainda assim, também tem outros mandados de condução coercitiva e busca e apreensão de documentos. Irregularidades similares também estariam sendo investigadas nos Estados de Paraná e Santa Catarina. Já foi apontado que Florianópolis apresenta prováveis irregularidades na licitação do sistema de ônibus

IRREGULARIDADES

A ação policial desfaz o mito de que Jaime Lerner seria um "santo" quando o assunto é transporte coletivo. Seu padrão de sistema de ônibus, baseado em medidas ultraconservadoras como redução de frotas em circulação, pintura padronizada e dupla função de motorista-cobrador, segue uma mentalidade própria da ditadura militar.

Afinal, o próprio Jaime Lerner se formou na UFPR do reitor Flávio Suplicy de Lacerda, que, como ministro da Educação do governo do general Castelo Branco, estabeleceu reformas educacionais que causaram intensa revolta estudantil, há 50 anos.

Além disso, Lerner iniciou carreira política como prefeito "biônico" (nomeado pela ditadura) de Curitiba, em 1974, ano de lançamento de paradigmas tecnocráticos de transporte coletivo que nos tempos atuais já demonstra estar em decadência irreversível, vide os casos da própria Curitiba e cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, este de maneira ainda mais trágica.

Fora do âmbito da mobilidade urbana, Lerner tem um histórico de corrupção administrativa comparável a de políticos como Paulo Maluf, com uma ganância privatista que despreza o bem público e com esquemas de desvio de recursos públicos e superfaturamento de obras.

Quanto à licitação, as irregularidades deveriam ser observadas já pelo fato da pintura padronizada ser adotada, já que, na prática, as empresas que aparentemente são consideradas vencedoras passam a ser proibidas de exibir suas respectivas identidades visuais. Portanto, é uma licitação feita para esconder empresas de ônibus, o que comprovadamente não assegura transparência alguma.

domingo, 6 de novembro de 2016

VALEU PROPOR O FIM DAS LINHAS ZONA NORTE x ZONA SUL? NÃO!


As pessoas deveriam deixar de lado o politicamente correto. A notícia dada há cerca de um ano, de extinção das linhas de ligação Zona Norte X Zona Sul, rachadas em linhas das respectivas zonas para o Centro, nada tem a ver com "otimização" e "racionalização" do sistema de ônibus carioca.

A medida, que só foi parcialmente revertida por uma ação movida pelo Ministério Público do Rio de Janeiro, extinguiria linhas tradicionais como 455 Méier / Copacabana e 474 Jacaré / Jardim de Alah, que deixariam de ir para a Zona Sul e teriam ponto final na Candelária.

Várias linhas passariam a ter fim de linha, além da Candelária, em áreas como Largo do Machado e, no máximo, a estação do Metrô da Rua Siqueira Campos, em Copacabana, na proximidade da Av. Princesa Isabel e sem cobrir a extensão do bairro.

A desculpa é que haveria um sistema integrado, com o uso do Bilhete Único para fazer a baldeação. Só que a proposta do fim da ligação direta das zonas Norte e Sul traria vários transtornos para a população, acostumada a se servir dos trajetos que teriam sido rachados.

Primeiro, é o fato de que o conforto de pegar sentado o primeiro ônibus não se repete no segundo, quando a viagem é feita quase sempre em pé. Segundo, os trajetos são longos e, no caso das baldeações, os trajetos duram mais que o tempo de validade do Bilhete Único, o que obriga a pessoa a ter que pagar mais uma passagem. Alguns passageiros, para evitar isso, passaram a demorar para passar pelo torniquete para o registro do cartão eletrônico ser retardado.

SEPARATISMO

Embora o tecnocrata Alexandre Sansão, que planejou a mudança, e o então secretário de Transportes, Rafael Picciani, argumentem que o fim das ligações Norte X Sul foi feito apenas para "reorganizar" o sistema de ônibus e garantir (sic) maior fluidez no trânsito, eles não puderam esconder que a medida trazia uma sutil discriminação social.

Paralelamente a isso, a Prefeitura do Rio de Janeiro - na gestão do mesmo PMDB que no plano nacional é representado pelo governo retrógrado de Michel Temer - tentou oferecer aos banhistas da Zona Norte um parque com uma pequena piscina e alguns chuveiros, respectivamente denominados de "praia" e "cachoeiras", chamado Praia de Rocha Miranda, dentro do Parque Madureira.

A iniciativa foi supervalorizada pela mídia e a inauguração foi um estardalhaço, com o prefeito Eduardo Paes tomando banho com os moradores. Mas a praia que, em tese, se destinaria aos suburbanos que se dirigiam ao corredor Leme-Pontal da orla carioca, não bastasse o pálido consolo da orla do Flamengo e Botafogo, nunca passou de um pequeno "lago" (ou piscina, dentro das extensões de um clube esportivo), com várias irregularidades.

Uma delas é o fato do horário limitado, que era muito mal determinado, pois começava às 09 horas, horário pouco recomendado por dermatologistas devido ao sol forte, e ia até às 20 horas, o que impedia a reunião para um luau entre jovens.

O fiasco da praia é omitido pela grande imprensa, e o que se viu foi uma forma de discriminação social quanto à ligação Norte X Sul, que em vez de ser extinta, deveria ser ampliada, já que uma ligação direta de Madureira a Ipanema, passando por Cascadura e Copacabana, é garantia certa de boa demanda de passageiros.

A proposta do fim da ligação Norte X Sul foi denunciada, até pela mídia estrangeira, como um meio de dificultar o acesso do povo suburbano às praias da Zona Sul e Barra da Tijuca (um esquema semelhante eliminou linhas como 465 Cascadura  Gávea, 676 Penha / Méier e 952 Penha / Praça Seca para complicar o deslocamento dos moradores dessas áreas).

Além disso, as denúncias foram reforçadas pela repressão policial a jovens pobres que, sem documentos, se dirigiam, pelo 474, para as praias de Copacabana e Ipanema, ocorrência dada a poucos dias do dia em que seria implantado o esquartejamento das linhas da Zona Norte para a Zona Sul, para desespero de Picciani, Sansão e companhia, que ganharam a fama mundial de segregacionistas.

Além disso, a eliminação da ligação Zona Norte X Zona Sul, se teve o propósito de "limpar" as praias da Zona Sul, com o separatismo social visando o turismo durante as Olimpíadas Rio 2016, não conseguiu realizar o objetivo desejado, porque o entorno da Zona Sul já possui amplas áreas suburbanas, como Rocinha, Vidigal e o morro do Pavão-Pavãozinho.

ASSALTOS

A ocorrência de assaltos e tiroteios em Copacabana não é recente e, além disso, teve até uma vítima fatal famosa, o ator, comediante e dublador Older Cazarré (irmão do falecido Olney Cazarré, comediante e dublador do Pica-Pau e do Coelho Ricochete, e, como este, tio-avô do ator Juliano Cazarré), atingido por bala perdida enquanto dormia, durante um tiroteio no Pavão-Pavãozinho.

A ação do tráfico nesse morro, situado entre Copacabana e Lagoa Rodrigo de Freitas, junto à tragicamente histórica Rua do Tonelero onde o jornalista Carlos Lacerda sofreu um atentado, em agosto de 1954, que matou seu guarda-costas Rubens Florentino Vaz (homenageado com o nome de um túnel próximo), deixou a antiga "Princesinha do Mar" com uma situação tão vulnerável como se fosse uma cidade da Baixada Fluminense.

Assaltos em quiosques, confrontos entre traficantes, comércio obrigado a fechar as portas, pivetes correndo atrás de cidadãos em plena luz do dia, turistas sendo assassinados por ladrões armados, latrocínios atingindo ciclistas ou motoristas, assaltos a estabelecimentos comerciais - como um que, recentemente, feriu a cantora e guia turística Kátia Hamed Garcia, que foi comprar um chocolate nas Lojas Americanas, numa noite - , criam um ambiente de pavor no bairro.

Isso fora os arrastões que ocorrem nas praias do bairro. E tudo isso é assustador se perceber que, na decadência avassaladora do Rio de Janeiro, Copacabana era o último reduto de modernidade e glamour que restava na ex-Cidade Maravilhosa abalada por surtos de violência, corrupção política e convulsões sociais de pessoas reacionárias.

De nada adiantou propor o fim das ligações Zona Norte X Zona Sul. Isso só prejudicaria as pessoas de bem dos subúrbios, que só querem trabalhar, estudar e até mesmo ir a praia e ver amigos. Se a ideia é evitar os marginais, deveria observar as ações do crime organizado nos morros da Zona Sul, que já renderam incidentes trágicos que viraram notícia em todo o país.

Se a questão é garantir segurança, não é eliminando os ônibus suburbanos que a situação irá se resolver. É melhorando a qualidade de vida do povo pobre, criando uma reforma imobiliária profunda para transformar favelas em bairros dignos e reforçando o policiamento para evitar as ações do crime organizado.