domingo, 22 de maio de 2016

VALE A PENA ESCONDER EMPRESA DE ÔNIBUS EM NOME DA MOBILIDADE URBANA?

ACIDENTE DE ÔNIBUS EM CURITIBA - DECADÊNCIA DO SISTEMA.

O começo do governo de Michel Temer está demonstrando, em diversos aspectos, os cacoetes do fisiologismo político. Medidas autoritárias que são impostas sob o pretexto de "beneficiar a sociedade" e "atender ao interesse público", se apoiando de argumentos "técnicos" e prometendo "futuros ajustes para otimização".

No âmbito do transporte coletivo, a gente viu esse filme de terror e suspense através de Jaime Lerner, um político da ditadura militar tido falsamente como "futurista" e "progressista". quando ele lançou medidas impopulares como pintura padronizada nos ônibus, redução de frotas nas ruas, dupla função motorista-cobrador e redução de percursos de linhas de ônibus.

É até surreal que o mesmo motivo de queixas dos passageiros, as longas esperas por ônibus por conta da quantidade limitada de ônibus, seja aplaudido por uma estranha elite de busólogos, mais preocupada em ocupar assentos na Secretaria de Transportes ou na Assembleia Legislativa.

Já houve busólogo, no Rio de Janeiro, que anos atrás surtou como se um Eduardo Cunha (o deputado, não o admirável busólogo veterano) do setor, criando blogue de calúnias e ofendendo fulano e sicrano nas mídias sociais, fazendo trolagem usando fakes mas se passando por "bonzinho" e "correto" diante dos busólogos mais conceituados, quando defendia a pintura padronizada nos ônibus.

Isso revela um rol de irregularidades, num sistema político e tecnocrático viciado que temos, em que até o Judiciário prefere enxergar mais as conveniências políticas do que as leis. E mostra o contexto em que prevalece um sistema de ônibus que se baseia num ato sempre duvidoso de esconder a identidade visual das empresas.

As autoridades tentam argumentar, sem convencer, que a pintura padronizada "favorece a identificação". Alguns, de forma aberrante, falaram que a identidade da empresa está no código alfanumérico do veículo. Outros, pelo pequeno logotipo exibido em cada ônibus, na lataria ou na janela. Tudo isso de forma inverossímil e improcedente, mas típico da demagogia de quem arruma desculpa para qualquer coisa.

Isso não convence porque basta ver a prática cotidiana. Na correria do dia a dia, as pessoas não têm tempo de ver o logotipo da empresa de ônibus perdido entre tantos adesivos na janela da frente nem em saber, por exemplo, a diferença entre B75561 e B25561.

Só nas mentes reacionárias de certos busólogos é que há essa ideia de que o povo vai ficar perdendo tempo observando ônibus de forma demorada. Há outras ocupações na vida, sem aqui criticar a da busologia, até porque mesmo os busólogos têm outros empregos, têm contas a pagar e no dia dos pagamentos não dá para ficar parado tentando ver a diferença, numa cidade como São Gonçalo, entre uma Transportes Tanguá e uma Transportes Icaraí.

A verdade é que a pintura padronizada esconde empresa de ônibus, sim. No contexto da correria do trânsito, isso faz uma diferença negativa. As pessoas se confundem todas, isso é inegável, e faz com que essa medida não traga vantagem alguma.

A pintura padronizada nos ônibus é tecnicamente inviável, não é funcional, não traz transparência nem favorece a mobilidade. E é uma medida que remete à ditadura militar, com aquela lógica de botar uniforme ou farda, típico de regimes fascistas.

Negar tudo isso é negar o óbvio, negar um dos aspectos que contribuem para a decadência do sistema de ônibus porque a pintura padronizada, na medida em que esconde as empresas de ônibus, favorece a corrupção e a queda de qualidade de serviço. Muitas empresas aproveitam a pintura padronizada para mudar de nome, trocar de linha etc, sem que as pessoas tenham exata noção disso.

É certo que recuperar as identidades visuais de cada empresa não irá melhorar, por si, o sistema de ônibus, mas permitiria aos passageiros comuns reconhecer com mais facilidade uma empresa ruim. Já imaginou se, por exemplo, uma Turismo Trans1000 e uma Viação Nossa Senhora da Penha tivessem exatamente a mesma pintura? Seria muito mais difícil combater a Transmil.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

FORMA COMO DILMA ROUSSEFF FOI AFASTADA DO PODER PERMITE CANCELAR PINTURA PADRONIZADA EM ÔNIBUS


Da forma como a presidenta da República, Dilma Rousseff, foi afastada do poder, é possível cancelar a pintura padronizada nos ônibus e critérios como consórcios e tipos de ônibus antes do prazo final, que no município do Rio de Janeiro, é previsto para 2030. A pintura padronizada nos ônibus pode então ser cancelada este ano, se houver alguma iniciativa judicial.

Isso porque as investigações em torno de Dilma Rousseff, embora tenham sinalizado para o impeachment, foram apressadas e o processo tornou-se partidarizado, com interferências estranhas de gente como o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e políticos do PSDB.

Se a pintura padronizada nos ônibus é uma arbitrariedade nociva em todos os sentidos, ao ser comparada à forma como se conduziu a Operação Lava-Jato - condenando de modo desigual os políticos do Partido dos Trabalhadores, já que o senador Aécio Neves, por exemplo, também é acusado de atuar no esquema de corrupção da Petrobras e não teve sequer mandato cassado - para tirar Dilma do poder, então não há argumento técnico que justifique manter a medida para os ônibus.

Portanto, dentro desta perspectiva, não existe argumentação procedente que possa justificar manter a pintura padronizada nos ônibus até 2030 ou investir numa renovação da medida. Assim como se lutou para afastar Dilma do poder, é possível também que se faça uma iniciativa para devolver, a cada empresa de ônibus, o seu direito de exibir a identidade visual própria.

Observa-se que a pintura padronizada nos ônibus cria uma infinidade de prejuízos e desvantagens. Não há como relativizar. Os argumentos em defesa da medida são inconvincentes, inverossímeis e improcedentes na realidade prática do passageiro comum que pega ônibus.

A pintura padronizada já é uma medida que contraria a Lei de Licitações, o Código de Defesa do Consumidor e até a Constituição Federal. Pelo caráter de relações econômicas, a medida contraria até a livre-iniciativa das empresas, pois a pintura padronizada, pela imagem que representa, simboliza a intervenção do Estado, que concede as linhas mas proíbe as empresas de apresentarem sua identidade visual.

Argumentos confusos a favor da pintura padronizada são feitos, como atribuir a exibição de pequenos logotipos e a confusa "sopa de letrinhas" do número do carro combinado com a letra do consórcio ou do tipo de ônibus, foram dados pelas autoridades, apenas para forçar a prevalência da medida, mesmo quando ela se torna nociva e prejudicial à população.

Tomar também como referência o fato de que o sistema permanece "sem problemas" em São Paulo, Belo Horizonte e Curitiba não procede, porque as medidas foram implantadas durante a ditadura militar, sendo "consolidadas" num contexto onde havia ainda censura explícita na imprensa e intimidação da opinião pública.

Portanto, a pintura padronizada nos ônibus demonstra ser uma medida ilegal, autoritária, ineficiente, tecnicamente inviável e comprovadamente contrária e nociva ao interesse público, não havendo condição de argumentações a favor dessa medida. Cancelar a medida é possível, apenas precisando de vontade política dos cidadãos para isso.