quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Padronização pode dificultar o benefício do Bilhete Único

É muita coincidência a adoção de pinturas padronizadas quase ao mesmo tempo da adoção do chamado "Bilhete Único", espécie de promoção nas passagens de ônibus que oferece um desconto para quem usar mais de um transporte por um curtíssimo período de tempo.

Políticos trabalham para empresários e não para a população. Por isso mesmo foi decidido o limite de tempo, na tentativa de dificultar a obtenção do desconto. Mas como nem políticos e muito menos empresários não são bobos, cria-se condições para que fique cada vez mais fácil ultrapassar o limite da promoção e perder o direito do desconto.

Engarrafamentos, máquinas leitoras de cartão que não funcionam, erros nas bandeiras de destino, enfim, tudo é feito pelos próprios envolvidos para sabotar a aquisição do benefício, favorecendo a ultrapassagem do prazo-limite, tendo que pagar o preço normal das passagens , que já são bem altas.

Mas uma coisa que ninguém sabe é que a padronização visual, hábito de pintar os ônibus municipais e estaduais com pinturas definidas pelas autoridades, dando destaque a logotipos de prefeituras e governos e escondendo a identidade das empresas operadoras, pode estar incluída entre as medidas feitas pelas autoridades, com a conivência de empresários, para sabotar o Bilhete Único nos sistemas onde a pintura das frotas possui uma farda.

Para se ter uma ideia, ficou mais demorada a identificação do ônibus que se deseja pegar. Um exemplo real que eu tive a oportunidade de observar é o da linha 278, que liga Marechal Hermes ao Castelo (embora ele pare na orla, próximo aonde havia o edifício Monroe).

Ele é servido pela empresa que era conhecida como Vila Real. Era a única linha da Vila Real que passava na Rua Primeiro de Março, próxima a Praça 15 de Novembro. Era fácil pegar a linha, pois automaticamente, se havia Vila Real, tinha a certeza de que era a 378. Nem precisava ler a bandeira de destino, era só entrar no veículo.

Hoje, ele tem a mesma pintura do consórcio Internorte de muitas linhas que passam no local. A atenção agora ficou redobrada. Como os ônibus tem o hábito de ficar embaralhados no ponto da citada rua, fica bem difícil identificar os ônibus. Se o ônibus da 378 para distante, escondido entre outros ônibus, fica difícil de ler a bandeira e perdê-lo, ou pegar o ônibus errado. E olha que tem linhas  do Internorte que vão para destinos bem longínquos em relação a 378. Para eu, querendo ir a Marechal Hermes, parar no extremo da Ilha do Governador, ficou muito fácil.

Esta demora para identificar o ônibus também representa a perda do tempo que poderá cancelar o uso do benefício do Bilhete Único, caso perca o ônibus ou pegue errado.

As autoridades que não se utilizam do transporte, mas lucram muito com o mesmo, oferecendo transporte cuja qualidade cai muito a cada dia, arrumaram um jeitinho a mais para sabotar o ultrasabotado Bilhete Único, cuja estipulação de um prazo limite para o direito ao desconto (entendo que não deveria haver limite em nenhuma hipótese) em si já é uma baita sabotagem.

domingo, 10 de novembro de 2013

EXPLICANDO PORQUE A PADRONIZAÇÃO DE PINTURAS DOS ÔNIBUS É NOCIVA

Muita gente ainda não sabe como a colocação de fardas nas frotas de ônibus, com destaque aos logos das prefeituras, é prejudicial a qualidade dos serviços de transporte municipal. Aparentemente soa o contrário, que a colocação de uniformes serve para deixar claro que o poder público zela pelo transporte de sua cidade. Mas o que se vê é o contrário: o transporte piorando cada vez mais. Mas o que essa piora tem a ver com a pintura padronizada?

Engana-se quem pensa que a padronização de pinturas respeita totalmente o caráter concessivo dos sistemas de ônibus, representando apenas um embelezamento estético e identificação do município. Basicamente, quando prefeituras e governos decidem padronizar frotas, elas estão querendo dizer que as mesmas pertencem ao poder executivo que os controla. É uma espécie de encampação em que o seu sustento financeiro vem das empresas e não do poder público.

Com isso, quem passa a administrar o transporte não são mais as empresas, limitadas a ceder as frotas para o poder executivo e cuidar da manutenção e da compra dos veículos. As empresas passam, através de consórcios, a serem empregados das prefeituras, o que descaracteriza o sistema de concessão, transformando em uma encampação enrustida.

E o que são os consórcios? No caso, é uma espécie de "empresa", de caráter público, onde se reúnem empresas que EM TESE, passam a operar juntas. Mas não é o que acontece na prática, já que os sistemas de ônibus continuam operando da mesma forma que antes, com a diferença do aumento do poder executivo sobre o sistema e da pintura que caracteriza esse aumento de poder.

Dá para perceber que é um modismo, já que isso, segundo a lógica, em si não melhora sistema nenhum. Acharam que é uma fórmula pronta e resolveram adotar, acreditando que a adesão de muitas cidades a esse tipo de sistema serve como atestado de êxito ao mesmo. 

Mas o que se vê é uma piora no sistema, pois há divergência entre as empresas e os governos que gerenciam, resultando numa briga interna e eterna em que quem paga o pato é a população que se utiliza do transporte, proibida de fiscalizar diretamente o transporte por não identificar mais a empresa que opera a sua linha. Com a padronização de pintura, não só o poder executivo se torna mais poderoso como se transforma no único meio capaz de "socorrer" a população no caso dos constantes erros nas operações de transporte.

E nós conhecemos nossos políticos. O que deveria ser mera representação popular, a carreira política se transformou numa excelente fonte de renda e profissão carreirista que transforma cada político em um verdadeiro magnata, somando poder financeiro ao poder de decisão e o prestígio que possui. Isso significa que entregar o sistema  de transporte a eles, de maneira integral, sem dar oportunidade da população de fiscalizar diretamente a qualidade do transporte, é um péssimo negócio.

Esconder a identidade das empresas, não somente dificulta a identificação por parte da população, como favorece a corrupção e várias irregularidades, já que a não há identificação imediata, favorecendo que muitas coisas aconteçam por "debaixo dos panos". E com o poder executivo das autoridades devidamente aumentado, o que vai valer mesmo é o interesse de prefeitos, governadores e seus assessores e secretários, seres humanos tão falhos quanto qualquer outro, com sede de poder e com perspectiva de aumentar o patrimônio pessoal de bens e dinheiro.

Não defendo aqui o interesse de empresários do transporte, também seres humanos falhos e com os mesmos interesses disputados pelos governantes. Mas o que defendo é a o direito da população de conhecer com facilidade as operadoras dos sistemas de transporte, para que ela gerencia diretamente a qualidade do mesmo, sem ter que recorrer a autoridades de índole duvidosa para tentar melhorar um sistema que só piora a cada dia, optando pelo uso de fórmulas prontas como meio de resolver os problemas que são diferentes em cada cidade.

Só resta mesmo dizer que Jaime Lerner, o criador desse "samba do crioulo doido" deve estar rindo a toa, pois foi com a intenção de ganhar dinheiro vendando as suas ideias, que todos decidiram colocar uniforme em ônibus. Agora só falta obrigar as pessoas a saírem das ruas uniformizadas.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

SALVADOR ADERE A PADRONIZAÇÃO VISUAL

No Brasil, é mania consagrar ideias ruins e descartar as boas ideias.

Infelizmente, na sociedade brasileira, ideias ruins são consideradas bem sucedidas pelo simples fato de estarem durando por muito tempo, como se apenas a durabilidade servisse como atestado de qualidade.

Além da durabilidade, a adesão maciça de várias pessoas e/ou instituições também é considerada como atestado, já que enfiamos em nossas cabeças que se todo mundo segue algo, é porque deve ser bom. O que já é mais do que comprovado que NÃO é verdade.

Depois que o Rio de Janeiro, estado que se auto-considera capital cultural do país (e por isso é a localidade brasileira mais famosa pelo mundo) e por isso influente para o resto do país, implantou a padronização visual, já rotineira em estados como São Paulo e Paraná, todo o país entendeu que as frotas municipais e metropolitanas de ônibus tem que usar pinturas impostas pelas prefeituras, como uma espécie de farda a ser colocada nos ônibus.

Apesar das brechas nas leis permitirem, essa medida descaracteriza a licitação, a condição de concessão inerente ao serviço de transportes e fere o interesse público, já que a população fica privada de identificar com rapidez as operadoras que fazem o serviço de ônibus.

A única vantagem da padronização é do interesse das autoridades, que veem na pintura padronizada uma forma de dizer "esse ônibus trabalha para a prefeitura". O papo de que "organiza" e que "facilita a identificação" é conversa de político desonesto, muito mais interessado em satisfazer os próprios anseios. Para a população, não existe vantagem em colocar farda em ônibus.

A população vai ter que aumentar o nível de atenção ao pegar seus ônibus. Infelizmente, muitas empresas não se preocupam em identificar com clareza as bandeiras laterais e traseiras, obrigando ao passageiro a ir para a frente dos ônibus para identificá-lo. A pintura diversificada por empresa facilitava ao passageiro a identificar, compensando essa falha.

Além disso, a população fica refém das prefeituras, já que terá que recorrer a ela como forma de tentar melhorar o transporte, denunciando as irregularidades que somente ela (e não a prefeitura) vê em seu cotidiano. 

A relação cliente-empresa fica prejudicada pela transformação da prefeitura em intermediário, já que a padronização, como uma encampação enrustida, transforma as empresas em empregados da prefeitura. Ou seja, a melhora do transporte terá que depender do interesse de prefeitos e secretários de transporte, normalmente envolvidos com interesses pessoais do que públicos. A prática mostra que sistemas padronizados há piora na qualidade do serviço, conhecida apenas de quem utiliza do transporte em cada cidade.

O sistema do Rio de Janeiro piorou muito após a padronização. As empresas, por entender que as frotas pertencem a prefeitura (a imposição de pintura deixa isso claro), já não fazem mais a manutenção adequada, que é cara, preferindo apenas "apertar os parafusos" e alimentar com combustível para que os carros rodem. O resto que as prefeituras paguem.

Outras capitais que utilizam a pintura padronizada são campeãs de queixas dos usuários, incluindo o "imaculado" sistema de Curitiba (de onde surgiu a ideia da pintura padronizada, em um longínquo 1974 - enfim uma ideia VELHA vendida como "novidade"), cujos defeitos só são conhecidos por quem mora por lá. Sistemas padronizados agem como cidades interioranas, onde a prefeitura gerencia diretamente o transporte, com grande precariedade. É uma forma de encampação sim, com a diferença de que o sustento financeiro vem da iniciativa privada.

O pessoal de Salvador que se prepare. O transporte, que já não era dos melhores, vai ter uma boa piorada. Com um secretário de transportes de mentalidade arcaica (José Aleluia, um dos políticos mais conservadores da Bahia) e sem o engajamento necessário para administrá-lo, não esperemos melhoras. E a população, acostumada a encontrar um transporte ruim que nunca cumpre o mínimo necessário, vai ficar com a, pior fatia de bolo, sendo a única a perceber que a colocação do nome da prefeitura nos ônibus em nada ajuda a melhorar o transporte, seja de qual cidade for.

EM TEMPO: Houve uma tentativa de padronização pelo que se observa na foto que ilustra esta postagem, com a extinta empresa Sul América. Na verdade, a padronização vem sido ensaiada há uns 10 anos, com a chamada "padronização branca", onde há grande maioria das empresas que dispensam a pintura se limitando a colocar uma logomarca para identificar.  Se isso já atrapalhava, imagine o que virá agora.