quinta-feira, 29 de agosto de 2013

O BRT não é a solução definitiva para o transporte, e sim o planejamento das linhas

É muito fácil e bonito colocar um grande articulado numa via só para ele, como solução para os problemas cotidianos no transporte. Além de exigir menos raciocínio (é só abrir vias aleatoriamente e pronto), serve como espetáculo, já que esses articulados primam pela estética.

Numa sociedade medíocre, que desaprendeu a exigir e se encanta facilmente por qualquer show super produzido de um cantor de meia-tigela qualquer cantando músicas ruins, o milagre do BRT veio a calhar.

Não que o BRT fosse ruim. Ele é bom, mas em alguns casos e algumas localidades. Há lugares onde ele funcionou. Há lugares inclusive onde ele deu certo, mas foi retirado por causa de má administração, como em Salvador, que em 1990 teve implantado o excelente e bem sucedido (mas muito mal administrado com o passar dos anos) projeto Transporte de Massa de Salvador, que se tivesse durado, teria economizado os gastos que a capital baiana teria com o atual BRT e tiraria a necessidade da implantação de um metrô, que só depois de uma década terá 10% de seu percurso pronto para funcionar.

Mas o BRT não pode ser tratado como única e melhor solução para o transporte de todas as cidades, que precisa urgentemente acabar com o excesso de automóveis nas ruas. Está mais do que na cara que ele está sendo implantado como modismo, de maneira irresponsável por gente que não é especialista, mas finge ser. E muita gente acaba confiando nas promessas e atitudes dessas falsas autoridades.

Muito dinheiro pra nada

O brasileiro se acostumou a usar mais os olhos e menos o cérebro. Para ele, tudo que faz bem aos olhos é sinônimo de eficiência. Em muitos casos se provou o contrário.

Além disso, as pessoas também habituaram a criar associações. Como se uma coisa justificasse a existência de outra: paquera depende de festa, música depende de dançarinos, futebol só deve ser comemorado aos berros e transporte de qualidade tem que ter articulado em vias exclusivas. São associações falsas que colocam o dispensável como essencial.

Mas se esquecem que os problemas do transporte não dependem de gigantes articulados para melhorar. Odeiam micrão? Pois lamento dizer que eles é que são o transporte adequado para as grandes cidades. Leves e ágeis, eles são mais adequados para trafegarem pelas muitas ruas de cada metrópole. São menores e não tem a beleza e imponência dos pesados e lerdos BRTs, mas com planejamento, dá para aproveitá-los com eficiência para que não gerem problema.

Construir vias exclusivas custam muito dinheiro. Além disso tem a desvantagem de limitarem a circulação de ônibus para determinadas áreas. O ideal seria que mantivessem o sistema como está, mas replanejando os itinerários, observando as reais necessidades das áreas envolvidas nos percursos e suas demandas.

Mas isso não agrada os defensores do BRT. Fazer planejamentos exige muita pesquisa e raciocínio para adequar as linhas as reais necessidades de um município. Além disso, não é espetaculoso, não é algo que encha os olhos e "mostre serviço" a leigos. O brasileiro é fascinado por espetáculos de todos os tipos e na busologia, somente um articulado imenso pode fazer a festa de quem gosta de shows mirabolantes.

E cá para nós, melhorar o sistema de fato significa diminuir os automóveis nas ruas. Algo que um imenso articulado nunca conseguirá resolver. O que vai resolver isso é dar muita educação às pessoas, fazendo-as entender que nenhum ser humano se torna melhor que o outro só porque tem uma automóvel registrado em seu nome.

Mas, infelizmente, a população brasileira, cada vez menos racional e cada vez mais sedenta por grandes espetáculos, como será de fato a copa de 2014, razão de ser desses projetos caros e inúteis, pede muito mais farra e falsas alegrias do que a resolução definitiva dos seus problemas.

Como todos fazem: faltou dinheiro? Esgoto a céu aberto? Patrão estressado? Minha casa caiu? Não faz mal. Peguem uma cerveja e vão ver televisão.

Pode ser que o gol feito por um analfabeto e uma gigantesca minhoca de aço rodando em uma estrada possam "salvar" os brasileiros de seus problemas insolúveis.

domingo, 4 de agosto de 2013

A VITÓRIA DA INCOERÊNCIA

Na Idade Média, quem era contra o sistema feudal e o seus governantes era punido severamente. Não havia diálogo e aceitar uma ideia dominante chegava a ser uma  atitude pela sobrevivência. Muita gente morreu queimada ou torturada por discordar de ideias dominantes.

Numa verdadeira atitude de retrocesso, esses tempos infelizes da humanidade ameaçam voltar. Pelo menos na busologia. A aceitação de um sistema que já nasce falido e a confiança cega nas autoridades que gerenciam esse sistema falido tem feito uma onda de pensamento único pró-fardamento de frotas que proíbe qualquer contestação. Quem contestou é humilhado na hora.

E não precisa nem ofender e escrever críticas longas. Uma frase curta que critique o sistema já é o suficiente. Os defensores do sistema agitam-se ferozmente feito abelhas atacadas e automaticamente tomam o contestador como algoz. Ao invés de um debate sadio, temos um verdadeiro corredor polonês moral onde aquele que exerce o seu direito democrático de criticar é agressivamente esculachado.

Mal sabem esses busólogos os danos que o fardamento que eles tanto defendem geram. Não sabem e nem querem saber, pois o foco deles é direcionado para a beleza e a potência dos veículos. Para se ter uma ideia da alienação deles, "melhorias" para a mobilidade urbana, segundo eles se limita a colocação de um ônibus articulado em uma estrada só para ele. Esquecem que mobilidade urbana é a integração de vários modais e que os ônibus não deveriam ser o foco das melhorias, por ser um transporte obsoleto. VLTs e metrô, além da eliminação de automóveis e adoção de bicicletas, deveriam ser o verdadeiro foco. Mas isso não traz "busão" bonito, não é?

Triste saber que a busologia carioca escolheu andar nesse caminho pantanoso da discórdia e da conformação com um sistema falido. Mais triste ainda é saber que, para os busólogos cariocas, o debate morreu e que agora só resta a aceitação cega de tudo que está aí.

Como passageiro, digo que ficou mais difícil pegar ônibus. Como cidadão, digo que perdi a confiança em um sistema que esconde muitos erros e seus bastidores, administrado por gente incompetente e desonesta. Como busólogo, digo que não tem a menor graça admirar ônibus num monótono sistema onde quase 50 empresas tem a mesma pintura, escondendo a sua identidade.

Para mim a busologia carioca morreu. Estamos necessitando de busólogos mais coerentes e menos fanáticos que não se conformem em ver ônibus bonito e possante em sistemas falidos. Se esquecem que as autoridades estão permitindo "busões" justamente para servir de fachada para os erros que ocorrem logo atrás e que somente os passageiros, que usam o transporte todos os dias conseguem perceber.

A intolerância, seja de qualquer tipo, é um retrocesso que impede qualquer tipo de evolução. Estamos no século XXI, mas nossa mentes estão cada vez mais  medievais, não acompanhando a evolução das máquinas, em uma época onde a análise deveria ser a grande vedete, impulsionando debates sadios que visem apenas a melhoria real e não joias falsas para brilhar aos olhos.

Por enquanto, fiquem felizes, busólogos: a incoerência defendida por vocês venceu. Resta saber quando é que o século XXI chegará aos nossos cérebros.