quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

O FRACASSO DA PADRONIZAÇÃO VISUAL DOS ÔNIBUS DO RJ



COMENTÁRIO: O texto ganhou muita repercussão só até a manhã de hoje, sendo o terceiro texto mais lido do blogue Mingau de Aço. E, modéstia à parte, os argumentos no texto são mais objetivos e coerentes do que os comentários que os irritados adeptos da "padronização" usam para fazer prevalecer sua visão.

Isso porque a busologia dos escritórios nem sempre é a busologia das ruas, do povo. E, em se tratando do grupo político de Eduardo Paes, sem comentários...

O fracasso da padronização visual dos ônibus do RJ

Por Alexandre Figueiredo - Blogue Mingau de Aço

Quando a peça tem um texto horrível, sua produção é péssima e o elenco é ainda pior, não há como esperar a peça terminar para avaliarmos se ela foi boa ou ruim. Logo no primeiro ato, a peça já mostra a que veio, tornando-se um fiasco irrecuperável.

Pois é isso que ocorre quando o assunto é a medida arbitrária da padronização visual nos ônibus do Rio de Janeiro. A medida, anunciada no final de 2009 e imposta no ano seguinte pelo prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, e seu secretário de transporte, Alexandre Sansão - espécie de Ali Kamel da busologia - mostra seu grande fracasso a três anos da Copa de 2014 e cinco das Olimpíadas de 2016.

Inspirado tanto nos modelos de Curitiba e São Paulo - que já mostram sinais de decadência e desgaste - , implantados durante a ditadura militar, o plano de transporte coletivo definido pela padronização visual, pela organização politiqueira de consórcios e pelo poder concentrado da Secretaria de Transporte, vê seu inferno astral ocorre não somente no desgaste de cidades onde ele foi "bem sucedido", mas numa cidade como o Rio de Janeiro que já começa a ver a decadência do transporte público.

A situação é fácil de se ver nas ruas. Uma média de 50 ônibus enguiçados por semana. Ônibus com lataria amassada e letreiro digital pifando. Mais demora na espera de um ônibus. Empresas antes exemplares, como Real e Matias, com carros sacolejando de danificados. E a Zona Oeste sofrendo ainda mais com o serviço ainda mais desastroso para o seu lado.

Isso sem falar da atenção redobrada na hora de pegar um ônibus. Agora, as diferentes empresas como Acari, Matias, Verdun, Madureira Candelária, Rubanil e City Rio possuem a mesmíssima pintura, o que dificulta sua identificação de longe.

Idosos, gestantes e deficientes têm que ir acompanhados de parentes, não apenas porque precisam, mas para um simples ato de identificar o ônibus que vão pegar. Os analfabetos também sofrem. Já dá para perceber como ficarão os turistas estrangeiros em 2014 e 2016, com a continuidade desse horroroso esquema.

BUSÓLOGOS-PELEGOS IRRITADOS

O tom do fracasso de uma medida destinada a prevalecer é notado pela irritabilidade daqueles que defendem a medida de Paes e Sansão. Nervosos, esses busólogos-pelegos, que passaram a defender as autoridades cariocas visando serem convidados a conhecer pessoalmente os dirigentes e astros esportivos em 2014 e 2016, passaram a fazer acusações infundadas contra os que reprovam essa mesma medida.

Não bastasse a acusação de "infantis", "desinformados" e "afrescalhados estéticos", os busólogos-pelegos agora acusam os opositores de "fanáticos", sem poder explicar direito seus propósitos, apenas usando desculpas esfarrapadas, inverossímeis, mas dentro das perspectivas dos poderosos em torno da prefeitura carioca.

Dá para perceber que o nervosismo e o desespero está do lado não daqueles que são contra a tal "padronização", que, por mais revoltados que pareçam, conseguem expor seus pontos de vista com equilíbrio e paciência. Já o outro lado mais parece o PSDB nos últimos tempos, sobretudo depois do lançamento do livro A Privataria Tucana, de Amaury Ribeiro Jr., pois, assim como a "padronização visual" e os consórcios cariocas, a privataria do governo FHC também foi uma medida tecnocrática que juntou uma minoria de defensores intransigentes e temperamentais.

A irritabilidade dos defensores da "padronização" se nota porque eles, felizes com a aparente unanimidade que a "panelinha" de busólogos-pelegos possui nas "redes sociais" e nos escritórios de autoridades e tecnocratas do transporte, não conseguem ver seus pontos-de-vista serem compartilhados pela maioria da população.

Por isso mesmo é que essa minoria arrogante e presunçosa de busólogos, assim que vê alguém discordando da padronização visual nos ônibus cariocas, disparam calúnias e xingações, ironias e gozações, numa verdadeira demonstração de "urubologia" busóloga ou até mesmo de bullying.

DESCULPAS SEM SENTIDO

As acusações ainda são acompanhadas de um moralismo reacionário dos busólogos-pelegos, que acham que diversidade visual só envolve estética e reagem às críticas com as desculpas "pragmáticas" de que "o que importa é se o serviço de transporte está bom". Tipo de gente dotada de chiliques tecnocráticos e de paranóias "utilitaristas".

Os busólogos-pelegos inventam mil desculpas. Dizem que, com a "padronização visual", os busólogos passaram a fotografar mais (?!) e que ônibus melhores foram adquiridos, como os de piso baixo. Puro trololó.

Pois ônibus de piso baixo foram comprados até numa cidade que desfez a sua padronização visual, a sulista Florianópolis, e com ou sem padronização visual os fotógrafos teriam produção intensificada, por conta das oportunidades do portal Ônibus Brasil, o maior dedicado ao transporte no país.

NÃO HÁ SOLUÇÃO, SÓ PALIATIVOS - A lógica desse "novo sistema" implantado no Rio de Janeiro já mostra seu fracasso em Curitiba. Um fracasso que inclui a sobrecarga das paraestatais controladas pelas Secretarias de Transportes e que já causa até mesmo tragédias.

Pois é um sistema tecnocrático cheio de desvantagens e transtornos. As empresas são camufladas num visual padronizado, impedindo a sua identificação pelo passageiro comum. Tudo é feito por decisão ou permissão do secretário de transportes que, a pretexto de ser apenas um "modesto regulador do sistema", comanda o transporte coletivo com mãos de ferro, mas também acumula em si responsabilidades que nem sempre é capaz de resolver ou assumir.

Por isso, as "soluções" que são feitas para salvar o esquema - que em Curitiba esteve à beira do colapso - não passam de paliativos. Mesmo a necessária renovação de frotas é feita mais para tentar intimidar os protestos do que em realmente beneficiar a população.

E a banalização dessas renovações já causa piadas em Curitiba, como no caso de mãe-de-santo prometer a compra de BRT's para trazer a amada de volta para os braços de um rapaz. E pode esconder até mesmo esquemas de lavagem financeira, mesmo porque inevitavelmente vem à tona o ditado "Quando a esmola é demais, o santo desconfia".

São apenas paliativos. Renovações tendenciosas de frotas, construção ou reparos nos corredores de ônibus, aumento das facilidades do bilhete único. No caso dos corredores viários, porém, a "solução" pode passar do paliativo ao problema, na medida em que em muitos casos - como na Zona Oeste do Rio de Janeiro - áreas ambientais podem ser derrubadas e até patrimônios históricos podem ser "tombados" (não no sentido da preservação no Livro do Tombo, mas reduzidas a pó e a entulhos, mesmo) com a obsessão rodoviária dos tecnocratas.

REINO UNIDO NÃO ADOTA PADRONIZAÇÃO VISUAL

Um dos grandes mitos que os tecnocratas do transporte alardeiam é que a padronização visual é adotada no sistema de ônibus da Grã-Bretanha. Grande engano. Lá impera a diversidade visual, como mostram vários sítios de ônibus ingleses existentes. E mesmo na pintura vermelha do serviço de ônibus de dois andares é feita de forma diferenciada por cada empresa.

A medida de "fardar" os ônibus, no entanto, é adotada em Madri, cidade inspiração para os políticos da direita carioca, o mesmo grupo político de César Maia e Sérgio Cabral Filho atualmente "rachado" por divergências pessoais, numa polarização que lembra muito a de Roberto Requião e Beto Richa, no Paraná, e que pode ocorrer entre o PSDB e o PSD em São Paulo.

A pomposa e insossa Praça Quinze de Novembro, no centro carioca, antes uma movimentada e até caótica, porém mais viva e menos insegura praça da Cidade Maravilhosa, transformou-se nesse clone de "praça espanhola" que no entanto acabou tendo um cantinho improvisado para mendigos e reduziu a Avenida Alfred Agache em túneis escuros e fedidos onde nem para pintar as paredes de branco fosforescente as autoridades quiseram fazer.

Mas a própria "inclinação" das autoridades cariocas para o interesse público dá o tom dessa padronização visual que já confirmou seu fracasso logo de cara. Afinal, não há qualquer vantagem em colocar diferentes empresas com o mesmo visual, muito pelo contrário.

E não é ofensivo dizer que nem todos possuem as mesmas habilidades técnicas que a minoria de busólogos que aplaude essa medida arbitrária, afinal não dá para cobrar de um ambulante ou de um casal de idosos o mesmo conhecimento técnico de ônibus do busólogo-pelego que posa de maioral e de dono da verdade no Orkut, Facebook e nos comentários do Fotopages.

O que se sabe é que não adiantarão paliativos. Mudar o design da padronização visual a cada governo, encher de carros novos, BRT's, ônibus de pisos baixos, motores de marcas suecas, criar novos corredores viários, ampliar o acesso ao bilhete único, tudo isso não resolverá e nem salvará o modelo tecnocrático de transporte coletivo. Isso mais parecerá como no caso do rapagão violento que, a cada crise conjugal, sempre compra doces, flores e ingressos para o cinema para a namorada.

Especialistas falam que a tal padronização visual adotada no Rio de Janeiro não durará 20 anos. Primeiro, porque os tempos são outros. Não estamos mais nos tempos de Jaime Lerner na ARENA, ou no pedessismo de Paulo Egydio Martins (o homem que udenizou a UNE) e do banqueiro Olavo Setubal, que implantaram os hoje decadentes modelos de transporte coletivo.

Já se fala até mesmo que, dentro de uns dez anos, a padronização visual acabará até mesmo em Curitiba, São Paulo e Belo Horizonte. Botar farda nos ônibus como se faz a aluninhos de internato só faz complicar o transporte coletivo. Mascara as empresas, e nenhum paliativo "milagroso" irá resolver.

O bom é a empresa ter sua própria imagem, para assim facilitar o reconhecimento e a avaliação dela pelo passageiro. E isso é também um direito à informação, porque reconhecer uma empresa de ônibus não deve ser privilégio de empresários, tecnocratas, políticos e busólogos-pelegos.

5 comentários:

  1. Perfeito o texto. Sobre os políticos da Direita se inspirando Madri e Barcelona, esqueceu do sr.Luís Paulo Conde que ameaçou com uma "Curitibanização" que se chamava Rio Bus, mas, o atual Prefeito do Rio está se inspirando desses Rio Bus como esse festival de "Curitibanização" posta cidade de fora.

    No último Domingo, agora que vi: a ligação Bangu x Sepetiba está com os dias contados com a "Curitibanização". É mole? De Bangu até Santa Cruz visitando familiares se pegava 1 condução, agora, com a "Curitibanização", sendo OBRIGADO a pegar 2 conduções.

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  2. Adorei a padronização! É um primeiro passo para que o sistema se torne mais eficiente igual às cidades europeias que eu também tive o prazer de visitar! Vocês já andaram no novo ônibus da Scania? Super confortável e silencioso! Os assentos até parecem de ônibus de viagem!

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  3. E o que tem isso a ver em andar de ônibus Scania piso baixo com esta "podronização"? É pura balela e enganação?

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  4. Nossa, estão preocupado com a padronização das cores desses caminhões adaptados de motor na frente que são extremamente desconfortáveis e que vocês tem coragem de chamar de ônibus.
    Porque não se preocupam em pedir para as empresas colocarem veículos com o padrão, design e conforto dos ônibus de verdade que são usados na Europa?

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