quarta-feira, 9 de março de 2011

Ator faz belo texto contra a padronização de ônibus

ESPREMENDO A LARANJA: Enquanto na busologia a padronização visual adotada na frota municipal do Rio de Janeiro vem ganhando mais adeptos, fora dela aumentam cada vez mais pessoas indignadas com essa medida tomada pelo prefeito Eduardo Paes e pelo seu secretário Alexandre Sansão de maneira arbitrária, sem plebiscitos, enquetes ou consultas de qualquer tipo.

Este texto pego no jornal O Globo, escrito por um ator de teatro, mostra a sua indignação numa linguagem quase poética, digno de alguém com sensibilidade.

Ordem sem tristeza

ROGÉRIO CORREA - Extraído de O Globo por Michel Levy e postado no Orkut

Quem não tem na memória as cores dos ônibus que fizeram e fazem parte da sua vida? Quem, como eu, nasceu e foi criado na Zona Norte, deve ter tomado muito o 438, que desde que me lembro, sempre foi laranja, e o 606 (vulgo “doriana”), que há décadas ilumina as ruas com um verde claro chamativo.

Sempre tivemos, na Cidade do Rio de Janeiro, cores tradicionais de linhas específicas, cores geralmente alegres, como o espírito do carioca.

Não é só uma questão de tradição e estética. É uma questão de praticabilidade. Pode-se identificar um ônibus a se aproximar do ponto a uma grande distância. Ou melhor, podia-se. Agora, pouco a pouco, os nossos ônibus estão ficando todos iguais, igualmente feios.

Sem discutir aqui os méritos do Choque de Ordem da Prefeitura da nossa cidade, creio que todos concordamos que um pouco mais de ordem seria bem vinda ao caos quotidiano do Rio de Janeiro. Porém, dentro desta perspectiva, devemos lembrar que o Rio tem uma saudável tradição de ser uma cidade colorida e alto astral.

Qualquer ordem proposta pelo governo (municipal, estadual ou federal) para a Cidade Maravilhosa deveria ter em mente esta tradição multicor. Não queremos ver o Rio transformado em Berlim ou em Londres, pelo menos não no aspecto estético.

No passado recente, o colorido das nossas praias cariocas já foi prejudicado pela interferência do governo nos guarda-sóis de aluguel, que foram todos uniformizados na cor vermelha. As praias da cidade hoje em dia lembram Brasília no dia da primeira posse do Presidente Lula: um mar vermelho que não Moisés que parta. Foi-se o colorido da praia. Porque não uniformizaram os guarda-sóis em 3 ou 4 cores diversas?

Mas pelo menos o vermelho escolhido para eles foi uma cor viva como o espírito do carioca. O mesmo não se pode dizer da presente uniformização dos ônibus urbanos. Estes estão pouco a pouco sendo pintados, todos iguais, com cores tristes e desmaiadas, com uma predominância infeliz do cinza.

Nem o vermelho dos double deckers de Londres* nos foi oferecido. Cinza! E ao cinza se adicionam detalhes em cores pastéis esmaecidas, cores de alface murcho. Quem planejou isso? Quem escolheu esta triste estética acinzentada? Um paulista? Um europeu? Um daltônico? Um fascista?

Se esta tendência for mantida, logo, logo os times de futebol e as escolas de samba serão também obrigados a se colorirem de cinza.

Esta padronização é um ataque à herança cultural da nossa cidade e deve ser imediatamente estancada e revertida. Por que se gastar tanto dinheiro para diminuir o colorido e a beleza da cidade? Que importemos o que o primeiro mundo tem de bom, como a ordem, mas sem perder o que a alegria e o colorido cariocas. Estes são nossos, uma parte importante do nosso patrimônio cultural. Não acinzente a nossa cidade, Sr. Prefeito!

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* NOTA: Nem o sistema de Londres é padronizado. Eu pesquisei (e postei aqui) e soube que os famosos vermelhinhos são apenas os ônibus que servem o centro da cidade. É uma padronização de serviço. Fora do centro, nota-se uma surpreendente variedade de pinturas e modelos de ônibus na capital inglesa, de fazer envergonhar o prefeito carioca que teve a asneira de dizer que a padronização visual é uma "tendência mundial". Falta de informação dá nisso.

A diversidade de pinturas era um dos símbolos da Cidade Maravilhosa. O que ele fez com os ônibus foi comparável a colocar saia no Cristo Redentor e acabar com a ondulação do Pão de Açúcar. Lamentável e vergonhoso.


Um comentário:

  1. Vejam o link da resposta do sr.Prefeito no "Manhã da Globo" apresentado por Roberto Canázio na Rádio Globo: http://brasilpaisdetolos.blogspot.com/2011/03/onibus-cariocas-latas-de-azeite.html

    Já meio que imaginava a resposta dele que é a arrogância temperada por uma ironia.

    Quando disse embalagem de azeite, devia se referir aquelas empresas que tinham pinturas tradicionais e históricas (principalmente uma que tinha uma pintura creme/azul com a faixa vermelha de baixo da janela com MAIS de 50 anos e atua na Zona Sul) que, simplesmente, foram por saco só para imitar por imitar. E Londres?

    Outro detalhe: se distanciou politicamente do sr.César Maia, mas, está cumprindo a cartilha do seu ex-chefe onde as palavras tradição e história não fazem parte do seu vocabulário. Quem não se lembra do tradicional Tívoli Park tirada à força pelo sr.César Maia?

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