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Padronização é o oposto de democracia


Por Marcelo Pereira

O Brasil se caracteriza pela padronização de ideias e costumes. Adora imitar os outros. Modismos propagam na sociedade brasileira com muita facilidade. Além disso, o brasileiro não tolera diferenças e se aparece alguém que se recuse a fazer algo que a maioria esmagadora tem o hábito de fazer, muitas vezes é tratado como um ser estranho, um monstro e em muitos casos, um mau-caráter, por mais bondoso que seja.

A copa do mundo mostrou que o povo adora ser padronizado, todos gostando de futebol (muitos - sem perceber - por obrigação), vestindo suas camisetas amarelas e torcendo pela vitória da "seleção" sem saber qual a verdadeira importância desta vitória (inútil para o cotidiano de nosso país). Para a maioria dos brasileiros, ter um time favorito é tão importante quanto ter um R.G. ou um número de CPF.

Agora vem o prefeito do Rio, Eduardo Paes e sua tão sonhada (por ele - of course) padronização de pinturas dos ônibus, acabando de vez com o maior atrativo do sistema de ônibus da capital fluminense, a diversidade de pinturas, que estimulava a criatividade de designers e a admiração de todos, sobretudo busólogos.

Em nosso cotidiano, observamos muitas tentativas de padronização. Eu, como adulto, sou obrigado a gostar de bebidas alcoólicas, sobretudo cerveja (que tem o gosto ruim). O não-consumo, segundo as regras sociais, só está liberado por motivos religiosos ou de saude. Mas não beber por puro gosto (o que é o meu caso) é visto com estranheza e até como ofensa, transformando alguém em um inimigo e criando situações danosas a quem se recuse a se embriagar.

Na vida afetiva, outro problema. A mídia criou um ideal de "beleza masculina" para favorecer apenas a certos tipos a terem facilidades na conquista de mulheres. Antigamente o padrão era o halterofilista (tipo Stallone). Mas como halterofilistas ficaram muito associados ao universo gay, que a sociedade teve que criar outro padrão, inspirado nos jogadores de volei e basquete, como tipo masculino ideal. Não precisam ter rosto bonito, é claro, mas um cabelo liso, rosto quadrado, altura de 1,75 no mínimo (tenho 1,64 - um anão, segundo o estereótipo imposto) e tronco esticado com ausência de barriga. Além de uma profissão bem prestigiada, o que ajuda muito.

Não significa que homens como eu não possam arrumar namorada. Mas significa que há um aumento de esforço, ter que batalhar mais para arrumar companhia, além de perder o direito de escolha (normalmente só consigo atrair quem não me atrai). Mais um problema gerado por padronização. E olha que não tenho preferência feminina: me interesso por tipos bem diversos, sem estar preso a padrões (eu faço a minha parte). Só para ter uma ideia, cheguei a me apaixonar, em 1992, quando morava em Salvador, por uma garota intelectualizada popularmente tida como feia. Pena que ela não me quis.

Vemos padronização em muitas coisas em nosso cotidiano. Quando ficamos adultos, queremos fazer tudo o que os outros fazem. O que a maioria faz dá a ilusão de ser correto, de representar a suposta felicidade. Muitos acreditam até que o que a maioria faz é biológico (o que favorece ainda mais os preconceitos contra os que não se encontram no padrão imposto) Se fulano casa, eu caso. Sicrano tem filho? Vou ter também! Beltrano tem carro? Já vou correndo comprar o meu. E normalmente estas atitudes são feitas instintivamente, sem medir consequências. Será que tenho condições de comprar carro, de criar um filho? Se a mulher com quem estou me casando tem afinidades comigo? Será que gosto realmente dela? Ela não vai me prejudicar? Ninguém pensa nisso.

Até a música e o cinema de entretenimento são padronizados. O padrão segue as regras do momento, impostas pela mídia e pela indústria do entretenimento. Quem quer fugir de padronização deve ir direto à cultura alternativa e ao cinema de arte. Mas quando eu falo em alternativo, não é aquilo que as pessoas chamam de "alternativo". Se as massas chamam algo de alternativo, é porque esse algo não é alternativo, já que o verdadeiro alternativo não chega ao conhecimento das massas.

Detesto padronização em excesso. Ela só deve existir quando necessária, para ajudar a identificação. Meus diferentes blogues costumam se igualar em logotipos, para criar uma associação. Mas padronizar com finalidades excludentes ou para mascarar irregularidades e matar estéticas, como é a proposta do sr. Paes, é inaceitável.

Porque padronizar em excesso é anti-democrático. Vai contra a liberdade, vai contra os direitos básicos, contra a melhoria de qualidade de vida.

Porque igualar pela aparência é na verdade segregar pela essência. Um mundo onde só os padronizados podem ser felizes não pode ser um mundo justo. Nunca.

(Publicado originalmente no Planeta Laranja, em 19/09/2010)

Comentários

  1. O Nélson Rodrigues citou a expressão COMPLEXO DE VIRA-LATA, ou seja, imitar algo mesmo com a realidade totalmente e vejo isso no Rio de Janeiro e em Niterói.

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  2. TA BOM,FICAR PROTESTANDO CONTRA A PADRONIZAÇÃO ,É UMA BOA,MAS TEM O SEU LIMITE(NÃO É MOTIVO DE DITADURA E ETC,MAS É QUANDO A PESSOA QUER OU NÃO).
    NÃO PRECISA FICAR AÍ,CRIANDO TEORIAS DA CONSPIRAÇÃO ACHANDO QUE A PADRONIZAÇÃO É UMA DAS AMEAÇAS CONTRA A HUMANIDADE(NÃO É QUE EU ESTEJA DEFEDENDO ELA,POR QUE EU TAMBEM DETESTO PADRONIZAÇÃO VISUAL).MAS COMO EU DISSE,TEM QUE PROTESTAR,MAS COM RESPONSABILIDADE,É SÓ UM CONSELHO QUE EU ESTOU TE DANDO,TA BOM.VALEU MARCELO PEREIRA,CONTINUE COM O SEU TRABALHO.
    UM ABRAÇO!!!!

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  3. Parabéns pela matéria, o que a elite quer é que sejamos escravizados inconscientemente através de seus padrões! Somente uma revolução vai fazer com que a população fique no poder!

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  4. Pelo que entendi trata-se da pintura, desculpe se eu estiver equivocado. Eu moro em Curitiba, aqui ficou tudo igual, parece que as empresas adoraram isso. Claro que a pintura padrão é mais fácil. Gostei da matéria, é bem isso que acontece. Acho que devem protestar mesmo, pois as pinturas dos ônibus diferenciadas também ganham uma marca registrada além de embelezar cada cidade e município onde tem governantes com cérebro. O Brasil tem as carrocerias mais bonitas de todo o mundo, principalmente as da década 50 a 80.
    Desejo que todos aí tenha êxito nessa batalha.

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