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MOVIMENTO PASSE LIVRE PERDEU CHANCE DE CRESCER PROTESTANDO CONTRA PINTURA PADRONIZADA


Muitos movimentos ativistas, às vezes, perdem o cartaz e murcham quando estreitam demais sua pauta reivindicatória e deixam de lutar por certas causas que poderiam trazer mais popularidade e prestígio para seus manifestantes.

A experiência do Movimento Passe Livre e outros movimentos juvenis que, a princípio, pareciam criar uma "primavera brasileira" em 2013, virou um fogo de palha quando o pessoal se recusou a lutar contra uma das piores coisas feitas para o transporte coletivo: a pintura padronizada nos ônibus, que esconde empresas aos olhos da população, causando confusão e permitindo a corrupção.

Presos a uma inútil "empresofobia", um horror burro às empresas de ônibus que faz com que se aceite o mascaramento político dos "consórcios" e outros critérios, medida que, para a corrupção empresarial, equivale a um incêndio sendo combatido com querosene.

A argumentação era sempre niilista: "eliminar a pintura padronizada nunca resolverá o problema dos ônibus". Em princípio, é até verdade. Mas, com cada empresa de ônibus exibindo sua identidade visual própria, há muito mais transparência e os passageiros podem reconhecer de imediato qual a empresa de ônibus que presta um pior serviço.

Imaginemos se, caso já tivesse sido implantada a pintura padronizada no DETRO, como seria a situação da Turismo Trans1000 e da Viação Nossa Senhora da Penha se tivessem literalmente a mesma pintura. Se já foi difícil combater a Transmil que, por incrível que pareça, tinha uma blindagem violenta de políticos e até de busólogos, imagine tendo o mesmo visual da NS Penha, bem mais eficiente e com boa frota.

Nenhum argumento consegue sustentar a pintura padronizada, e as alegações "técnicas", "estéticas", "moralistas" etc remetem mais àquela mania de justificar arbitrariedades do grupo político de Eduardo Paes, inspirado neste caso pelo mito urbanista de Jaime Lerner, político originário da ditadura militar, e que o Brasil conheceu através das desculpas sobre as medidas retrógradas tomadas pelo presidente interino Michel Temer ou pelo deputado afastado Eduardo Cunha.

No Rio de Janeiro, a medida da pintura padronizada se mostrou fracassada. Não é preciso esperar até 2030 para cancelar a medida, ela pode ser feita na próxima semana, mesmo. Falta só vontade política, mas sobretudo falta indignação popular, até porque os prejuízos relacionados aos ônibus "iguaizinhos" se tornam evidentes.

As frotas dos ônibus municipais do Rio de Janeiro estão sucateadas, os acidentes aumentaram e a corrupção, mascarada pelo visual dos "consórcios", aumentou vertiginosamente. Empresas trocam de linhas, mudam o nome, mudam a razão social, e ainda "compensam" a fachada "disciplinadora" do padrão visual com irregularidades na documentação.

Teve City Rio se dividindo em Via Rio e Vigário Geral e o povo nem percebeu. Os estudantes do Fundão (campos da UFRJ em Bonsucesso) nem perceberam a City Rio virando Vigário Geral e depois City Rio e depois VG. Teve também Saens Peña mudando de nome para NS Graças e ninguém percebeu.

Teve linha trocando de empresa, e não só a pintura permaneceu igual como o péssimo serviço também. A Pavunense abocanhou algumas linhas do Centro e seus carros são tão sucateados quanto as antigas operadoras. E houve Caprichosa (empresa da Zona Norte) indo para a Zona Sul, Real Auto Ônibus indo para o Méier e o pessoal nem percebeu, dando dinheiro para alimentar o poder de certos empresários em detrimento de outros.

Os estudantes são os que mais têm risco de pegar ônibus errados. pelo ritmo frenético e pelo espírito bastante movimentado que têm. E ninguém percebe o risco que é pegar o ônibus errado num sistema decadente desses.

Vide o caso da tragédia com o ônibus da linha 328 Bananal / Castelo, da Paranapuan, que poderia ser confundido com um ônibus da linha 239 Água Santa / Castelo, da Verdun, ou 378 Marechal Hermes / Castelo, da Vila Real, para não dizer o 326 Bancários / Castelo, da Ideal. Imagine um cara não só pegar um ônibus errado como morrer na queda do veículo no Viaduto de Bonsucesso?

E aquela pessoa que vai feliz da vida para o Maracanã, num domingo, e, querendo pegar um ônibus para o Grajaú, pega um para o Jacarezinho, numa tarde de domingo e, assustado, decide desembarcar numa área do bairro de Triagem, uma atitude improvisada que pessoas vindas de outros Estados ou do exterior costumam fazer. E aí tais pessoas passam por uma área onde bandidos, desconfiados, as rendem e as matam.

O Movimento Passe Livre desconheceu tais dramas e tantos transtornos e irregularidades. O direito de ir e vir na "cabra-cega" dos ônibus padronizados é tortura para os cidadãos de várias cidades do país e o fato de que essa medida dura muitos anos em São Paulo, Curitiba e Belo Horizonte não quer dizer que ela tenha que prevalecer mais tempo no Rio de Janeiro.

Alguém por exemplo iria aceitar que uma arbitrariedade política como a polícia dar surra em manifestantes fosse mantida em tal cidade, só porque ela é praticada mais tempo em outras cidades bem mais influentes?

Daí que as manifestações do MPL perderam a chance de derrubar a pintura padronizada nos ônibus de várias cidades. Não teríamos o papelão de Nova Iguaçu em que os políticos mentiram feio e apenas botaram carros velhos com pintura nova. E os paulistas, por exemplo, se livrariam da confusão que é o sistema de ônibus de lá.

Com isso, o MPL perdeu a chance de se destacar na opinião pública, se fechando demais no papo de protestar contra o aumento das passagens. Isso porque não adianta lutar para reverter o aumento para R$ 3,80 voltando a ser R$ 3,40 se o estudante vai pegar ônibus errado e, numa tarifa de R$ 3,40, pagar R$ 6,80 nestas ocasiões.

O Movimento Passe Livre não revelou líderes, não projetou ativistas e ainda ficou "queimado" na sociedade como um grupo ensimesmado, rígido e sem diálogo com a sociedade. Se lutasse contra a pintura padronizada nos ônibus, que é a fonte de muita corrupção nas empresas de ônibus, o MPL teria tido uma repercussão bem melhor, se destacando como um movimento ativista que falta na nossa sociedade brasileira.

Sem lutar contra a pintura padronizada, o MPL parou no meio do caminho e se estacionou numa manifestação que acabou abrindo caminho para Black Blocs, Revoltados On Line e outros grupos autoritários que só fizeram piorar o cenário político de nosso país.

Comentários

  1. A cor da tinta usada nos ônibus é o que menos importa num debate sobre qualidade de transportes públicos, não há motivo para o MPL querer levantar a bandeira da anti padronização. Aliás, nenhum especialista em mobilidade defende isso, é desnecessário. O transporte público, linhas e horários, tudo isso pertence ao poder público, que licita o serviço para que empresas privadas uma vez que ele não pode oferecer o serviço com recursos próprios.
    Sobre empresa X ou Y deixar de operar certas linhas, é normal e foi uma opção da própria pra poder se encaixar no edital de licitação.
    Sobre identificação, correções podem ser feitas como prefixos maiores e mais contrastados em relação à pintura da carroceria. Os usuários possuem outras formas de identificar a empresa, pelo próprio prefixo, placa ou horário da linha. Grandes cidades pelo mundo adotam pinturas padronizadas, isso é importante até mesmo para a organização dos serviços oferecidos pela cidade, como a diferenciação dos serviços de linhas intermunicipais, fretamento, turismo entre outros.
    Isso de movimento anti padronização é coisa de busólogos saudosistas que perderam motivações pra fotografar.

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